Os fundadores da Pro.com, o marketplace de reformas residenciais que foi adquirido pela Opendoor em 2021, estão de volta com uma nova empreitada. A OnTrade, uma startup baseada em Seattle, mira um mercado aparentemente distinto: o de gestão de fortunas. Com um aporte de valor não revelado de gigantes como General Catalyst e Madrona, a companhia operou discretamente nos últimos dois anos desenvolvendo uma plataforma de inteligência artificial para consultores financeiros.

Liderada por Raji Subramanian e Matt Williams, veteranos da Amazon, e com Zachary Harl, ex-diretor de investimentos do Bank of America, a tese da OnTrade é que o setor de wealth management não sofre de um problema de demanda, mas de acesso. A proposta não é substituir o gestor, mas equipá-lo com ferramentas para que possa atender mais clientes com a mesma qualidade, um modelo de "IA vertical" que começa a ganhar corpo no mercado de software.

O cérebro por trás da prancheta

Em vez de construir mais um sistema de ponta a ponta, a OnTrade funciona como uma camada de inteligência que se conecta às ferramentas que os assessores já utilizam — de CRMs a softwares de contabilidade de portfólio e compliance. A partir dessa integração, a plataforma aciona "agentes de IA" para executar tarefas analíticas que hoje consomem um tempo valioso: escanear carteiras em busca de oportunidades de otimização fiscal, sinalizar contas que se desviaram das metas ou redigir relatórios para clientes.

O ponto crucial, no entanto, é a supervisão humana. Nenhuma ação é executada sem a aprovação final do consultor, um mecanismo que busca resolver o déficit de confiança que ainda cerca a automação no setor financeiro. A analogia usada por Harl, CIO da startup, é que os modelos de IA generativa são como "PhDs brilhantes" — impressionantes no papel, mas que precisam de treinamento específico para entender as nuances de um setor, com seus portfólios, políticas de risco e regras de conformidade. A OnTrade se posiciona como essa especialização.

Integração em vez de disrupção

O surgimento da empresa ocorre em um momento estratégico, poucos dias após o anúncio de que a gigante Vanguard pretende adquirir a plataforma de wealth management Altruist. Para os fundadores da OnTrade, a transação valida a oportunidade. Contudo, a estratégia é distinta. Enquanto a Altruist construiu uma solução completa que inclui sua própria custódia — exigindo que os escritórios migrem os ativos de seus clientes —, a OnTrade aposta na integração.

A plataforma não pede que seus clientes abandonem ferramentas estabelecidas como Orion ou Addepar; ela se conecta a elas. A visão é que a unidade de escala na indústria está mudando "do número de pessoas que uma firma emprega para a inteligência e agência que ela consegue mobilizar". O pano de fundo para essa transformação é a chamada "Grande Transferência de Riqueza", com uma expectativa de que mais de US$ 50 trilhões passem das mãos dos baby boomers para as gerações mais jovens nas próximas décadas, criando uma onda de novos clientes e uma pressão inédita por eficiência.

O paralelo que os fundadores traçam entre reformas de imóveis e gestão de patrimônio, à primeira vista inusitado, revela a lógica da aposta. Ambos são mercados gigantescos, tradicionalmente atendidos de forma artesanal e com baixa penetração de tecnologia. A OnTrade aposta que, em vez de uma demolição completa, o futuro do setor será uma reforma inteligente, onde a IA atua como o arquiteto, e o gestor humano, como o mestre de obras. A questão em aberto é se essa parceria será suficiente para, de fato, democratizar o acesso à gestão de patrimônio em larga escala.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire