A luz no ateliê de Daniel Correa Mejía, em Berlim, não vem apenas das janelas que dão para a rua. Ela emana de dentro da trama. Para o artista colombiano, que ocupa o mesmo espaço há treze anos, a pintura é um exercício de escuta atenta à materialidade. Ao trabalhar sobre a juta, ele estabelece um diálogo onde o tecido deixa de ser um suporte passivo para se tornar o protagonista da composição. A escolha de deixar partes da fibra crua expostas, utilizando a cor natural do material como fonte de luminosidade, transforma cada obra em uma construção que respira através de sua própria textura.

A arquitetura da intimidade

O ateliê, localizado no térreo, funciona como uma extensão de sua residência. A proximidade física entre a vida doméstica e o espaço de criação permite uma fluidez que Mejía considera um privilégio. Ali, entre sementes coletadas, fotografias de família e o som constante de músicas em loop, o artista cultiva uma rotina baseada na intuição. O ambiente, compartilhado com outros criativos, atua como um organismo vivo que evolui conforme sua prática se transforma, desafiando a ideia de que o artista precisa de um isolamento absoluto para produzir.

O material como motor criativo

Para Mejía, as limitações espaciais e materiais são catalisadores. A decisão de trabalhar com a juta não é meramente estética, mas profundamente poética. Ele descreve o processo como uma negociação constante com a trama, onde a tinta a óleo interage com a rugosidade do material. Essa fisicalidade é complementada pelo uso da argila, um retorno ao elemento terra que ele manipula com as mãos, buscando uma conexão ancestral que ecoa sua admiração pelas coleções pré-colombianas que visita ocasionalmente em museus alemães.

O ateliê como corpo da obra

A ideia de que o estúdio é um espaço protegido, quase sagrado, permeia sua visão artística. Mejía reflete sobre a impossibilidade de transpor a energia do ateliê para a neutralidade de uma galeria, onde o contexto da criação se perde. Ele vê suas obras como seres que vivem em diálogo com os objetos ao redor — pedras, sementes e memórias — sugerindo que a pintura é, na verdade, uma extensão do próprio ambiente onde foi gerada. O ateliê torna-se, assim, um componente indissociável da obra final.

Entre a rotina e o transe

A prática diária de Mejía é um equilíbrio entre o rigor e o acaso. Ele tenta iniciar uma nova obra a cada semana, recorrendo aos seus diários de desenho para capturar o estado emocional do momento. Ao abrir a porta para a rua e observar o movimento do bairro, ele mantém um pé na realidade urbana enquanto o outro permanece imerso no transe criativo da pintura. Essa dualidade entre o recolhimento e a observação externa define o ritmo de uma produção que busca, acima de tudo, a honestidade do gesto.

O que resta, ao final de uma tarde de trabalho, é a persistência da fibra. Quando o artista se retira e o ateliê silencia, a juta permanece, guardando a luz que o tempo, o óleo e a memória ali depositaram. Resta a pergunta sobre quanto da nossa própria essência deixamos impressa nos lugares que ocupamos, e se a arte, em sua forma mais pura, não seria apenas o esforço de revelar o que já estava lá, escondido na trama.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic