A nomeação de Jessica Morgan para liderar a Tate, em Londres, e a escolha do renomado escritório de arquitetura japonês SANAA para projetar o novo Museo Nacional del Ecuador, em Quito, parecem eventos desconexos. O primeiro é um desafio de gestão e curadoria; o segundo, um projeto de infraestrutura de US$ 100 milhões. No entanto, ambos apontam para uma questão central que define o futuro das grandes instituições culturais.
Segundo reportagem da ARTnews, que compilou os anúncios, a missão de Morgan é restaurar a "confiança, ambição e vanguarda curatorial" da Tate. Ao mesmo tempo, o Equador investe em uma nova casa para seu acervo de 1,2 milhão de objetos. A leitura aqui é que os museus enfrentam um dilema: devem ser guardiões silenciosos do patrimônio ou protagonistas ativos da vida cultural e urbana, muitas vezes através do espetáculo?
A arquitetura como atração
O projeto do SANAA em Quito, batizado de “Living Strata”, é um exemplo claro da segunda via. A proposta não visa apenas abrigar uma coleção, da qual apenas uma fração está hoje em exibição, mas criar um marco arquitetônico. A decisão, que veio após um controverso cancelamento do concurso original, sublinha como esses projetos se tornaram eventos de grande visibilidade e debate público. O investimento massivo sugere que o edifício é, em si, parte fundamental da proposta de valor, uma estratégia que busca o chamado "efeito Bilbao" — onde a arquitetura icônica revitaliza a imagem e o turismo de uma cidade.
O desafio da curadoria
Enquanto isso, em Londres, o foco está no conteúdo. A expectativa é que Jessica Morgan, com seu histórico na Dia Art Foundation, impulsione exposições mais aventureiras e dê espaço a artistas negligenciados pela história tradicional. O desafio, como aponta o Financial Times, é equilibrar essa ambição com o apetite do público por obras icônicas e exposições "blockbuster", que frequentemente garantem a saúde financeira da instituição. O mandato de Morgan é, portanto, fazer a Tate ser, simultaneamente, mais relevante intelectualmente e mais popular.
A tensão entre o projeto arquitetônico monumental e a vanguarda curatorial ecoa uma provocação recente da revista The Economist, que sugeriu que a Europa funciona menos como um museu e mais como um "parque temático" que constantemente reinventa e performa sua herança. Seja através de um novo edifício espetacular ou de uma exposição provocadora, os grandes museus parecem ter entendido a mensagem: para atrair público e financiamento, não basta mais preservar o passado; é preciso encená-lo. A questão em aberto é se, nessa busca por relevância, a experiência não acaba por ofuscar o próprio acervo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews




