A crescente demanda por inteligência artificial e a sanção da lei Redata, que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, têm impulsionado a expansão de data centers no Brasil. Contudo, a avaliação desses empreendimentos, focada predominantemente em critérios de sustentabilidade energética, pode ser superficial. Uma pesquisa apresentada pelo professor Leonardo David Quintiliano, da Faculdade ESEG, sugere que a análise deve ser ampliada para abranger a segurança das informações, a soberania digital e os impactos econômicos e sociais.
O estudo, apresentado no evento AI4SDG 2026 em Liubliana, Eslovênia, argumenta que a sustentabilidade de um data center não se resume ao uso de energia renovável ou à eficiência hídrica. A pesquisa destaca a importância de questionar quem controla os dados armazenados, quais são as garantias de segurança oferecidas e quais benefícios concretos o empreendimento traz para a sociedade. Há o risco de que data centers utilizem fontes limpas de energia, mas exerçam pressão sobre recursos hídricos locais ou apresentem vulnerabilidades na proteção de dados sensíveis.
Avaliação Ampliada para Data Centers
Para Quintiliano, a sustentabilidade de um data center vai além de métricas ambientais isoladas. A pesquisa propõe um modelo que integra a sustentabilidade ambiental, a segurança e soberania digital, e os impactos econômicos e sociais. O objetivo é criar parâmetros verificáveis para auxiliar empresas e autoridades públicas na análise de novos projetos. Um empreendimento pode ter um bom desempenho ambiental, mas falhar em garantir a proteção de informações estratégicas ou a transparência sobre o controle de dados. O modelo busca uma avaliação conjunta dessas dimensões, vinculando incentivos públicos a resultados concretos e benefícios para a sociedade brasileira.
Segurança e Soberania Digital em Xeque
A pesquisa também aborda a questão da soberania digital. A simples instalação de servidores em território nacional não garante que os dados estejam submetidos exclusivamente à legislação brasileira. Empresas estrangeiras podem operar essas infraestruturas, sujeitando os dados a leis de outros países ou permitindo transferências e acessos internacionais. Quintiliano enfatiza a necessidade de clareza sobre quem detém o controle efetivo das informações, quais empresas participam do processamento e armazenamento, e quais mecanismos permitem às autoridades brasileiras fiscalizar essas operações. O desenvolvimento da infraestrutura nacional deve vir acompanhado de garantias de transparência, segurança jurídica e proteção robusta dos dados.
Impactos Econômicos e Sociais Relevantes
Além das preocupações ambientais e de segurança, o estudo chama atenção para a necessidade de avaliar os benefícios econômicos gerados pelos data centers. A análise vai além da construção e operação das instalações, considerando se esses investimentos ampliam o acesso de universidades, centros de pesquisa e empresas brasileiras à capacidade computacional. A geração de empregos qualificados, a contratação de fornecedores locais e o acesso à infraestrutura tecnológica são fatores cruciais para o desenvolvimento tecnológico nacional. A pesquisa alerta para o risco de que os incentivos públicos beneficiem projetos que não geram retornos significativos para a economia local ou para o avanço científico do país.
Perguntas em Aberto para o Futuro
A proposta de um Índice de Responsabilidade de Data Centers, ainda em fase acadêmica, busca oferecer uma ferramenta para a tomada de decisão. No entanto, a validação empírica e testes em larga escala serão necessários para sua implementação prática. Fica em aberto a questão de como as autoridades brasileiras irão efetivamente fiscalizar a soberania digital e a segurança dos dados em um cenário de crescente interconexão global e de domínio de grandes players internacionais. A definição de políticas públicas que considerem a complexidade desses fatores é um desafio para garantir que a expansão desses centros de processamento de dados contribua genuinamente para o desenvolvimento sustentável e a segurança nacional.
A pesquisa de Quintiliano aponta para a necessidade de um olhar mais crítico e abrangente sobre a expansão dos data centers no Brasil, incentivando um debate público qualificado sobre os verdadeiros benefícios e riscos associados a esses empreendimentos. A simples adoção de energia renovável, embora importante, não é suficiente para garantir que essas infraestruturas sejam verdadeiramente benéficas para o país. Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





