A construção de novos data centers tem gerado apreensão entre os consumidores residenciais, que temem um aumento expressivo em suas contas de eletricidade. No entanto, a realidade desse impacto é mais complexa e multifacetada do que a percepção pública sugere, conforme apontam estudos recentes. A forma como esses centros de processamento de dados afetam os custos de energia varia significativamente de acordo com a infraestrutura elétrica local, os termos contratuais negociados e o tipo de data center.
Um estudo de 2025 do Lawrence Berkeley National Laboratory e da Brattle Group, focado no estado da Dakota do Norte, apresentou um cenário contraintuitivo. Entre 2019 e 2024, o aumento da demanda por eletricidade de grandes consumidores, incluindo data centers, contribuiu para a redução das contas de luz no estado. Isso foi possível devido à oferta de energia relativamente abundante na região, com forte presença de fontes eólicas, que não exigiu a construção de nova infraestrutura. Assim, os custos fixos da rede puderam ser diluídos entre um número maior de consumidores, barateando o custo por unidade. Essa dinâmica, contudo, torna-se menos provável à medida que a capacidade ociosa da rede se esgota.
O que dizem as pesquisas acadêmicas
Em outra frente, pesquisadores da University of Pennsylvania e da Harvard Business School adotaram uma abordagem comparativa. Ao analisar contas de eletricidade em áreas que receberam novos data centers entre 2020 e 2025, em comparação com regiões sem novas construções, eles constataram um impacto relativamente pequeno nas contas residenciais. Em média, os data centers representaram apenas 4% do aumento total observado no período, embora os preços da energia industrial tenham subido mais acentuadamente. A pesquisa, que buscou evidências concretas para além da percepção pública, indicou que o tipo de data center também influencia o resultado. Centros de colocation, onde empresas alugam espaço para seus servidores, tiveram um impacto maior nos preços do que data centers hiperscale, dedicados a um único inquilino. Isso pode ser explicado pela tendência dos hiperscalers de se instalarem em áreas rurais com maior capacidade na rede e pela maior propensão a cobrir os custos de novas infraestruturas, incluindo fontes renováveis.
Riscos de uma rede sob pressão
Apesar dos exemplos que mostram um impacto limitado, a perspectiva para o futuro não é tão otimista. Um relatório do Energy Systems Integration Group (ESIG) aponta que, embora ainda existam locais com capacidade excedente que poderiam reduzir custos em até 0,88 centavos por quilowatt-hora, essa situação tende a ser temporária devido à escala crescente da demanda. Além disso, a capacidade extra pode ser necessária para outros usos emergentes. Diversos fatores podem pressionar as contas para cima: um data center pode superestimar sua necessidade de energia, levando à construção de infraestrutura que será custeada por outros consumidores. Da mesma forma, atrasos na construção ou encerramentos prematuros podem deixar os custos de novas instalações a cargo dos demais usuários da rede.
O papel das fontes de energia e os custos futuros
O tipo de geração de energia utilizada para suprir a demanda dos data centers é outro fator crucial. A organização Energy Innovation estima que a dependência de combustíveis fósseis para novas usinas poderia adicionar US$ 29,7 bilhões anuais às contas dos consumidores até 2030. Em contrapartida, o uso de energia limpa poderia gerar uma economia de cerca de US$ 5 bilhões. Em um cenário de alta nos preços de carvão e gás, como o observado recentemente, o custo para os consumidores poderia saltar para US$ 40,5 bilhões anuais, enquanto a energia limpa poderia economizar até US$ 13,5 bilhões. O relatório do ESIG estima que, em um cenário extremo com múltiplos fatores elevando as taxas, o custo poderia aumentar em 1,32 centavos por quilowatt-hora, o que se traduziria em aproximadamente US$ 10 a mais na conta mensal.
Quem paga a conta da energia?
O debate sobre o impacto dos data centers nas contas de eletricidade é complexo e envolve uma análise cuidadosa da infraestrutura existente, dos acordos comerciais e das fontes de energia empregadas. Embora a percepção geral aponte para um aumento inevitável dos custos, a realidade demonstra uma gama de possibilidades, desde a redução das tarifas em regiões com excesso de capacidade até aumentos significativos em cenários de escassez e dependência de combustíveis fósseis. A transição para fontes de energia mais limpas e a negociação de contratos que internalizem os custos de infraestrutura por parte dos grandes consumidores parecem ser caminhos essenciais para mitigar os efeitos negativos sobre os consumidores residenciais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





