Nitin Nohria, uma figura proeminente no estudo e na educação de líderes empresariais, defende uma tese surpreendente: o papel do CEO, apesar das transformações tecnológicas, sociais e regulatórias, permaneceu notavelmente estável nas últimas três décadas. Como ex-decano da Harvard Business School (HBS) e atual presidente executivo da Thrive Capital, Nohria tem uma perspectiva única, moldada por anos ensinando o programa New CEO Workshop e por pesquisas aprofundadas sobre a rotina de executivos de ponta.
Sua nova obra, "The CEO: The Role, the Reality, the Responsibility", consolida essa visão, que desafia a narrativa predominante de que o cargo de CEO se tornou insustentavelmente complexo. Nohria reconhece que o ambiente em que os CEOs operam está em perpétua mudança. Novas tecnologias emergem, normas sociais se alteram e o escrutínio regulatório se intensifica. No entanto, ele sustenta que as responsabilidades fundamentais do CEO — definir a visão estratégica da empresa, montar uma equipe sênior de alta performance e alinhar a organização para a tomada de decisões eficazes — permanecem constantes.
A Constância da Experiência do Novo CEO
Um dos aspectos mais consistentes que Nohria observa é a experiência de transição para o cargo de CEO. Ao longo de 30 anos, ele tem perguntado a novos executivos sobre as surpresas que enfrentam ao assumir a liderança. As respostas, consistentemente, giram em torno de três pontos principais: a impreparação para estar sob constante escrutínio público, a necessidade de aceitar que não se pode tomar todas as decisões sozinho e a fragmentação ainda maior de agendas já sobrecarregadas. Nohria enfatiza a necessidade de os CEOs se lembrarem de que o objetivo não é "trabalhar mais que o cargo", mas sim "moldar o contexto onde outros podem tomar decisões que você celebra", em vez de se verem como a única força motriz do desempenho da empresa.
Pequenas Mudanças, Grandes Prioridades
Embora a essência do papel permaneça, Nohria aponta para nuances na forma como os CEOs alocam seu tempo. A pandemia da COVID-19, por exemplo, normalizou as reuniões virtuais, alterando a dinâmica de interação. Além disso, a pressão regulatória pode ter aumentado, exigindo mais tempo com autoridades. Contudo, ele lamenta que stakeholders cruciais como clientes e funcionários da linha de frente continuem recebendo atenção desproporcionalmente baixa. Sua pesquisa, que analisou a alocação de tempo dos CEOs em incrementos de 15 minutos, revelou que apenas 3% do tempo era dedicado a clientes. A lógica do "squeaky wheel gets the grease" (a roda que range mais recebe graxa) se aplica, e esses grupos nem sempre são os mais vocais. A solução, segundo Nohria, é simples, mas desafiadora: agendar proativamente essas interações, pois "se não estiver agendado, o risco de se perder é muito alto na vida de um CEO".
A IA como Aliada e a Singularidade de Ari Emanuel
As ferramentas de inteligência artificial (IA) começam a despontar como aliadas na gestão do tempo dos CEOs. Nohria menciona o uso de ferramentas como o Copilot para analisar agendas e otimizar a alocação de tempo, funcionando como um "pequeno chefe de gabinete" que incentiva prioridades corretas. Em um exemplo pitoresco, Nohria relata ter aconselhado Ari Emanuel, CEO da Endeavor, durante um período de fusão. Apesar da natureza aparentemente mais volátil de Emanuel em comparação com os executivos corporativos de HBS, Nohria admira sua "constância e propósito direcionado em fazer as coisas acontecerem". Ele especula que Emanuel, em um único dia, pode ter mais reuniões do que a maioria dos CEOs que ele estudou.
O Desafio da Alocação de Tempo
A discussão sobre a alocação de tempo do CEO é um lembrete constante de que, mesmo com a evolução do cenário empresarial, a liderança eficaz exige um equilíbrio delicado entre visão estratégica, gestão de pessoas e engajamento com o mercado. A capacidade de um CEO de navegar por essas demandas, priorizando o que realmente importa em meio a um fluxo incessante de informações e obrigações, continua sendo o cerne de seu papel. A questão que permanece é como os líderes de hoje conseguirão manter esse equilíbrio em um mundo cada vez mais volátil e interconectado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





