O Reino Unido atravessa um período de estagnação econômica e desilusão social que marca o fim de sua era de hegemonia pós-imperial. Em 2007, a renda média das famílias britânicas superava a da Alemanha, e Londres consolidava-se como o epicentro financeiro global. Quase duas décadas depois, o cenário é de declínio: a produtividade por habitante mal supera a do Mississippi, o estado mais pobre dos Estados Unidos, e o poder de compra da libra despencou frente ao dólar.
A deterioração é visível na crise dos serviços públicos, como o National Health Service (NHS), que acumula filas de milhões de pacientes e enfrenta problemas estruturais graves. Segundo reportagem da The Atlantic, o que diferencia a trajetória britânica de outras nações desenvolvidas que também sofreram com a crise financeira de 2008 ou a pandemia não é o azar, mas uma sucessão de decisões políticas autodestrutivas que paralisaram o crescimento do país.
O legado da austeridade e a desindustrialização
A resposta do governo britânico à crise de 2008, focada em cortes drásticos de gastos públicos, é apontada como um ponto de inflexão crítico. Enquanto economistas sugeriam estímulos para reativar a demanda, a estratégia de austeridade de David Cameron visava reduzir déficits, mas acabou por sucatear a infraestrutura e aprofundar a pobreza infantil. O desmantelamento do bem-estar social deixou populações em regiões pós-industriais, como Stoke-on-Trent, sem suporte frente ao impacto da globalização.
Historicamente, o Reino Unido tentou transitar para uma economia baseada em serviços, mas falhou ao não redistribuir a riqueza gerada por Londres para as regiões periféricas. A desindustrialização, iniciada nas décadas anteriores, foi agravada pela falta de investimento em energia, tornando o custo operacional para empresas britânicas um dos mais altos do mundo. Esse cenário de abandono gerou um ressentimento que encontrou eco político no referendo do Brexit, visto por muitos como um grito de socorro de uma classe trabalhadora esquecida.
A armadilha da paralisia institucional
A incapacidade britânica de construir infraestrutura é um reflexo direto de um sistema político que se sobrecarregou com burocracia e vetos locais. Projetos como a linha ferroviária de alta velocidade HS2 viram seus custos triplicarem, tornando-se os mais caros do mundo sem sequer serem concluídos. A ausência de um regime de zoneamento claro, paradoxalmente, não facilitou a construção, mas transformou cada projeto em uma negociação interminável com conselhos locais e grupos de resistência.
A política de "veto points" e revisões constantes sufocou a capacidade de execução do Estado. O Parlamento, detentor de autoridade teórica, optou por se cercar de procedimentos que impedem a renovação do país. Essa atrofia na governança cria um ciclo onde a instabilidade política — com a rápida sucessão de primeiros-ministros — impede qualquer continuidade de políticas de longo prazo, mantendo o país em um estado de paralisia permanente.
O fenômeno Nigel Farage e a nova direita
O vácuo deixado pelos partidos tradicionais, conservadores e trabalhistas, abriu caminho para a ascensão do Reform Party, liderado por Nigel Farage. A narrativa de Farage, que culpa elites ineficazes e a imigração pela ruína nacional, tem ressoado fortemente em um eleitorado exausto. A proposta de uma "terapia de choque" para o Estado britânico, que inclui a limitação do poder de órgãos independentes e do judiciário, sugere uma mudança radical na estrutura constitucional do país.
As implicações desse movimento são profundas para a soberania e a estabilidade democrática. Enquanto o foco do debate público se mantém na imigração, questões estruturais como a produtividade e o custo de vida permanecem sem soluções concretas. A promessa de restaurar a soberania através do confronto com a burocracia pode atrair apoio eleitoral, mas levanta questões sobre se tais medidas seriam capazes de reverter décadas de má gestão econômica ou se apenas aprofundariam a polarização.
Perspectivas para o futuro britânico
A incerteza sobre quem governará o Reino Unido nos próximos anos reflete a falta de um consenso nacional sobre como sair da crise. A ascensão de figuras como Andy Burnham, em Manchester, mostra que há modelos alternativos de gestão focados em descentralização, mas o sistema político centralizado de Westminster tem atuado como um barreira para essas lideranças regionais. Observar se o próximo governo conseguirá romper com a inércia será o principal teste para o país.
O Reino Unido encontra-se em uma encruzilhada onde a nostalgia pela grandeza passada colide com a realidade de um declínio persistente. Se a próxima classe dirigente britânica continuará a optar por soluções que priorizam o curto prazo político em detrimento de reformas estruturais de base é a questão que definirá o próximo capítulo da economia britânica. A recuperação exige mais do que retórica; exige o reconhecimento de que o principal obstáculo ao progresso tem sido o próprio processo decisório doméstico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Atlantic — Ideas




