O setor bancário brasileiro viveu uma década de ouro na digitalização da experiência do cliente, impulsionada por marcos como o Pix e o Open Finance. Contudo, essa fachada digital começa a mostrar fissuras em sua fundação. A próxima onda de transformação, segundo Rodrigo Silva, presidente da Temenos para a América Latina, não acontecerá na tela do aplicativo, mas nos bastidores: a modernização do core bancário.
Em entrevista ao portal TIInside, Silva argumenta que, após investirem pesadamente na “capa digital”, as instituições financeiras agora se deparam com um gargalo competitivo em seu back office. Muitos operam sobre uma colcha de retalhos de sistemas legados, ambientes rígidos que travam a inovação e impedem a velocidade necessária para competir com fintechs nativas digitais. A corrida, portanto, desloca-se da interface para a infraestrutura.
A cirurgia modular
A resposta para a obsolescência do core não precisa ser um arriscado e custoso projeto “big bang”, no qual todo o ambiente tecnológico é substituído de uma só vez. A Temenos, fornecedora suíça de software bancário, defende uma abordagem de modernização progressiva e modular. A estratégia é permitir que os bancos atualizem componentes específicos de acordo com a prioridade do negócio, seja o crédito corporativo, a fábrica de produtos ou os serviços para pessoa física.
O projeto em andamento no Banco da Amazônia serve como um caso emblemático. A instituição está substituindo 96 sistemas legados por uma plataforma unificada da Temenos. O processo começou com a integração de novos clientes já na nova plataforma, seguida pela migração gradual das operações antigas. Essa tática de cirurgia modular reduz os riscos operacionais e permite que o banco avance na modernização de forma incremental, sem paralisar suas atividades.
Nuvem e IA no motor
A flexibilidade da plataforma é outro pilar da estratégia. Os bancos podem escolher operar em ambiente on-premises, em sua própria infraestrutura de nuvem ou no modelo SaaS (software como serviço). Segundo Silva, bancos de maior porte na América Latina tendem a preferir o controle de suas nuvens privadas, enquanto instituições menores ou mais ágeis optam pelo SaaS, delegando a operação ao fornecedor.
O uso de inteligência artificial também é aplicado de forma estratégica, não apenas em ferramentas de atendimento, mas para acelerar o próprio ciclo de desenvolvimento. A plataforma da Temenos utiliza uma interface conversacional que auxilia na configuração de novos produtos, analisando a base de clientes e orientando o usuário no processo. A IA também é empregada para facilitar a integração com sistemas legados e otimizar a complexa migração de dados.
A corrida pela digitalização bancária no Brasil entra, assim, em uma fase mais profunda. O foco deixa de ser apenas a aparência da inovação para se concentrar na agilidade do motor operacional. A modernização do core deixou de ser um projeto de TI para se tornar uma alavanca estratégica que pode definir os vencedores da próxima década.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





