A disparidade no acesso ao trabalho formal entre homens e mulheres permanece como um dos indicadores mais persistentes de desigualdade global. Segundo o relatório 'Employment and Social Trends 2026', da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego feminino supera a masculina na maior parte do planeta, ainda que a magnitude desse hiato varie drasticamente conforme a região geográfica e o estágio de desenvolvimento econômico.

Globalmente, a diferença nas taxas de desemprego é de 0,2 ponto percentual, um número que, embora pareça contido, mascara realidades locais díspares. Enquanto no Norte da África e nos Estados Árabes o desemprego feminino excede o masculino em 9,4 e 8,0 pontos percentuais, respectivamente, economias avançadas como a América do Norte e o Leste Asiático apresentam um cenário inverso, onde o desemprego masculino é ligeiramente superior ao das mulheres.

O abismo persistente no MENA

A região que compreende o Oriente Médio e o Norte da África (MENA) apresenta os índices mais críticos de desequilíbrio. A leitura aqui é que a intersecção entre barreiras culturais, restrições legais históricas e a dependência de setores públicos em desaceleração cria um ambiente onde a inserção laboral feminina enfrenta obstáculos estruturais significativos. Embora reformas recentes em países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tenham buscado flexibilizar o acesso ao mercado, o ritmo dessas mudanças ainda não foi suficiente para equalizar as taxas.

Além das questões regulatórias, a responsabilidade desproporcional sobre o cuidado familiar e doméstico atua como um desincentivo à permanência ou à busca de emprego por parte das mulheres. Esse cenário sugere que a desigualdade não é apenas um reflexo de oferta e demanda, mas de um arcabouço social que ainda limita a participação feminina a setores específicos ou a jornadas que conflitam com as expectativas tradicionais de gênero.

Dinâmicas em economias desenvolvidas

Em contraste, regiões como o Leste Asiático e a América do Norte exibem um padrão onde o desemprego feminino é inferior ao masculino. Esse fenômeno pode ser atribuído, em parte, à mudança na composição da força de trabalho e à evolução dos sistemas educacionais. Em muitas dessas economias, as mulheres superam os homens em níveis de escolaridade, o que amplia suas perspectivas de contratação em setores de maior valor agregado.

Vale notar que a transição para economias focadas em serviços, como saúde e educação, tem favorecido a empregabilidade feminina. Por outro lado, setores tradicionalmente dominados por homens, como construção civil, mineração e manufatura, são frequentemente mais suscetíveis a ciclos econômicos e volatilidade, o que explica por que, em momentos de retração, a taxa de desemprego masculina pode sofrer impactos mais agudos do que a feminina nesses mercados.

Desenvolvimento econômico como variável insuficiente

Embora a correlação entre desenvolvimento econômico e redução da desigualdade pareça intuitiva, os dados da OIT indicam que o desenvolvimento por si só não é uma panaceia. A presença de hiatos significativos na Europa e na Ásia Meridional demonstra que as disparidades de gênero no mercado de trabalho são influenciadas por normas culturais locais e políticas públicas que transcendem o nível de PIB per capita.

Para o ecossistema brasileiro, a análise reforça a necessidade de observar não apenas o dado agregado do desemprego, mas a qualidade e a segmentação dessa ocupação. A experiência internacional sugere que a mera expansão econômica, sem políticas direcionadas para a mitigação de barreiras de cuidado e acesso, tende a manter os hiatos de gênero estagnados mesmo em cenários de crescimento.

Incertezas sobre a trajetória futura

A questão central que permanece é se a convergência educacional será suficiente para superar as barreiras remanescentes nas regiões com maior desigualdade. Observar como as políticas de flexibilização laboral no Oriente Médio se traduzirão em taxas reais de ocupação nos próximos anos será fundamental para entender a eficácia das reformas atuais.

Além disso, resta saber se a digitalização e a automação do trabalho, que tendem a impactar setores de serviços e manufatura de formas distintas, irão exacerbar ou atenuar as diferenças de gênero. O acompanhamento contínuo dos dados da OIT será essencial para identificar se as tendências de longo prazo apontam para uma paridade real ou se o hiato apenas mudará de natureza.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist