Nos Estados Unidos, a experiência de se mudar para a universidade ganhou uma nova e custosa dimensão. Famílias estão investindo milhares de dólares para transformar os modestos dormitórios estudantis em verdadeiros projetos de design, completos com papéis de parede, cabeceiras personalizadas e até lustres controlados por aplicativo. O gasto com mobília e decoração para dormitórios e apartamentos de estudantes deve atingir um recorde de US$ 14 bilhões este ano, segundo dados da National Retail Federation citados em uma reportagem da revista Fortune.

O fenômeno ocorre em um momento paradoxal: o custo anual para frequentar dezenas de universidades americanas está se aproximando ou já ultrapassando a marca de US$ 100 mil, incluindo mensalidades, moradia e despesas. A leitura aqui não é apenas sobre extravagância, mas sobre uma aparente reconfiguração de prioridades e do que se entende por “investimento em educação”.

Uma indústria que nasce do status

Longe de ser um esforço amador, a tendência deu origem a uma nova indústria de nicho: designers de interiores especializados em dormitórios. Profissionais como Shelly Gates, fundadora da Mary Margaret Designs, chegam a gerenciar dezenas de projetos por temporada, com alguns orçamentos alcançando US$ 20 mil. O que começou como um projeto pessoal para a filha se tornou um negócio que atende a uma demanda crescente por conforto e estética, amplificada pela cultura de exposição em redes como TikTok e Instagram, onde os “antes e depois” dos quartos viralizam.

O argumento de venda, segundo Gates, é que se trata de um “investimento de quatro anos” em bem-estar e em peças de arte que o estudante levará como memória da faculdade. Embora um estudante entrevistado pela Axios justifique o gasto com a busca por conforto — “ele vai morar aqui pelos próximos nove meses” —, a escala profissional e os valores envolvidos sugerem que a motivação transcende a mera comodidade, tocando em questões de status e expressão pessoal em um ambiente altamente competitivo.

O cálculo por trás do luxo

Contrariando a intuição, esse movimento não é exclusividade das famílias que pagam anuidades de seis dígitos nas universidades da Ivy League. Segundo Sara Harberson, especialista em admissões universitárias ouvida pela Fortune, a tendência é particularmente forte em grandes universidades públicas no sul dos EUA. O motivo é puramente financeiro: mesmo para estudantes de outros estados, o custo total nessas instituições pode ser consideravelmente menor que o de uma universidade privada de elite.

Essa diferença, muitas vezes ampliada por bolsas de mérito, libera uma parcela significativa do orçamento familiar para gastos discricionários. A escolha, portanto, é consciente. Uma família pode optar por uma universidade pública de alta qualidade, economizando dezenas de milhares de dólares em mensalidades, e redirecionar parte dessa economia para criar uma experiência de moradia premium para o filho. É uma forma de alocar capital onde o retorno é mais visível e imediato.

No fim, como aponta Harberson, “as famílias estão deixando claro onde e no que querem gastar seu dinheiro quando se trata de faculdade”. O fenômeno do dormitório de luxo é menos um sintoma de excesso e mais um reflexo de uma complexa equação de valor, onde a experiência universitária é cada vez mais um produto a ser consumido e personalizado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune