O legado de Touko Laaksonen, o artista finlandês conhecido mundialmente como Tom of Finland, transcendeu o underground da erótica queer para alcançar o reconhecimento internacional. De desenhos de homens com físicos impressionantes, frequentemente em trajes de couro e em atos sexuais explícitos, submetidos a publicações como Physique Pictorial nos anos 1950, a uma exposição de sucesso no Museu de Arte Contemporânea Kiasma em Helsinque em 2023, e selos postais emitidos pela Finlândia em 2014 que geraram pedidos de 178 países, o artista se consolidou como um ícone cultural. Sua obra é representada por galerias de prestígio em Los Angeles, Nova York e Berlim, e foi celebrada em livros monumentais e musicais esgotados. No entanto, a instituição dedicada a preservar sua memória, a Tom of Finland Foundation, sediada em Los Angeles, encontra-se no centro de um turbilhão de conflitos internos, com acusações de má gestão e assédio mútuo entre o conselho administrativo e o cofundador Durk Dehner.
O cerne da discórdia reside na gestão e direção da fundação, que abriga um acervo de obras avaliado em dezenas de milhões de dólares. Segundo o conselho, a coleção, antes armazenada em uma unidade nos fundos da Tom House – a residência do artista e sede da fundação –, foi recentemente realocada para uma instalação de nível museológico devido ao risco de incêndios na área. Este movimento, no entanto, é apenas um dos muitos pontos de atrito que expõem uma profunda cisão entre os novos líderes da organização e figuras proeminentes de seu passado. As tensões escalaram a ponto de Dehner, em uma postagem no Instagram em setembro, rotular a liderança atual como um "conselho desonesto", expressando sua convicção de que o conselho, majoritariamente baseado em Nova York, pretende afastar a organização de Los Angeles. A situação reflete uma batalha pela alma e pelo futuro de uma instituição que, apesar de seu aparente sucesso cultural, enfrenta dificuldades financeiras, com receitas de cerca de US$ 678.000 e despesas de aproximadamente US$ 800.000 em 2024, segundo formulários fiscais.
A Ascensão de um Ícone e a Semente da Discórdia
Tom of Finland, nascido Touko Laaksonen (1920–1991), emergiu como uma figura seminal na representação da homossexualidade masculina, desafiando as normas sociais e a censura de sua época. Seus desenhos, que celebravam a fisicalidade e a sexualidade de homens gays, muitas vezes em uniformes, incluindo os nazistas – uma ironia que o próprio artista reconhecia pela estética, embora rejeitasse a ideologia –, tornaram-se um símbolo de orgulho e libertação para gerações. A fundação, cofundada por ele e Durk Dehner em 1984, foi criada com o propósito de salvaguardar esse legado. Por décadas, Dehner esteve intimamente ligado à organização, atuando não apenas como cofundador, mas também como presidente do conselho, funcionário remunerado, proprietário do imóvel onde a fundação operava e beneficiário de pagamentos de negócios comerciais da entidade. Essa multifacetada relação, no entanto, tornou-se um foco de escrutínio para o conselho atual.
O conselho, que se descreve como focado em "fortalecer e proteger a Fundação", iniciou uma revisão de suas políticas de conflito de interesses e processos de governança. A meta declarada é garantir a conformidade com as leis que regem organizações sem fins lucrativos na Califórnia e em nível federal, buscando evitar riscos como auto-dealings e o benefício privado indevido. Essa abordagem, segundo o conselho, levou à revisão de atividades, como projetos em Amsterdã que, de acordo com eles, saíram da programação aprovada e envolviam potenciais conflitos de interesse e a venda de obras sem as devidas autorizações. O conselho argumenta que, para garantir que os recursos da fundação sirvam exclusivamente à sua missão beneficente, é necessário um escrutínio rigoroso e a adesão estrita às normas de governança. A complexa teia de relações de Dehner com a fundação, que incluía ser locador do imóvel onde a sede operava, levantou bandeiras vermelhas para os novos gestores, que buscam uma separação mais clara entre os interesses pessoais e os objetivos da organização.
A Controvérsia do Cofundador e a Crise de Liderança
A saída de Durk Dehner de sua posição como presidente da fundação em janeiro de 2025 foi acompanhada por sua remoção como jurado do International Mr. Leather (IML), após o surgimento de fotos em que ele usava insígnias nazistas. Embora Tom of Finland tenha desenhado homens em uniformes nazistas, o artista sempre repudiou a ideologia. Dehner emitiu um pedido de desculpas público, reconhecendo ter violado seu próprio código de ética e a necessidade de maior consciência em um mundo que, segundo ele, nem sempre aceita "quem somos como povo". Essa controvérsia pessoal, somada às questões de governança, intensificou a crise. O conselho alega que Dehner, como locador, chegou a despejar a fundação de sua sede em julho, tornando inviável a continuidade de programas como o de residência artística. "A Fundação não pode mais operar responsavelmente como uma organização residente na casa do Sr. Dehner", declarou o conselho em setembro. Por outro lado, Dehner e seu parceiro, S. R. Sharp, que atuou como diretor de operações, afirmam que grande parte da equipe foi dispensada abruptamente em junho, e que o conselho não tem demonstrado capacidade de captação de recursos, com a maioria dos membros servindo por menos de dois anos.
O conselho, no entanto, contesta essa narrativa, afirmando ter angariado centenas de milhares de dólares nos últimos dois anos e meio, com cerca de US$ 75.000 assegurados nos últimos trinta dias para apoiar exposições e programação. Eles também apontam que um dos membros do conselho tem envolvimento próximo com a fundação desde 2020. A disputa se estende à interrupção de programas como o de residência artística. Dehner e Sharp alegam que o conselho descontinuou abruptamente esses programas sem notificar os artistas, alguns dos quais já haviam se preparado financeiramente e logisticamente para vir a Los Angeles. Um grupo de 41 artistas residentes publicou uma carta aberta expressando "profunda preocupação com a falta de transparência e a interrupção abrupta de diversos programas pela administração atual". O conselho responde que a seleção de artistas para residência carecia de supervisão adequada e transparência, e que a necessidade de deixar a Tom House dificultou a identificação e contato com os artistas afetados. Ofereceram reembolso e a promessa de inclusão em futuras programações, além de convidar ex-residentes a moldar os próximos passos da fundação.
Implicações e o Futuro Incerto da Fundação
A batalha pela Tom of Finland Foundation levanta questões cruciais sobre governança em organizações culturais sem fins lucrativos, especialmente aquelas que lidam com temas sensíveis e um acervo de valor artístico e financeiro significativo. A fundação, que se orgulha de ser "tão única", com obras que transitam do "esconderijo debaixo da cama" para coleções de museus como o MoMA, enfrenta o desafio de equilibrar a preservação de um legado transgressor com a necessidade de conformidade legal e sustentabilidade financeira. A descontinuidade de programas como o de residência artística, a demissão de funcionários e as acusações de assédio e má gestão por ambas as partes pintam um quadro de instabilidade que pode comprometer a missão principal da fundação.
Para o ecossistema artístico, especialmente o LGBTQIA+, a Tom of Finland Foundation representa um marco histórico e um espaço vital para a preservação e disseminação de uma cultura visual muitas vezes marginalizada. A incerteza sobre sua direção futura e a profundidade do conflito em curso geram apreensão entre artistas, apoiadores e o público em geral. A forma como o conselho e Dehner resolverão suas divergências, ou se uma solução será encontrada, definirá o destino do acervo e do legado de um dos artistas mais importantes do século XX. A fundação, que já demonstrou capacidade de adaptação e relevância através de colaborações com marcas como Diesel e parcerias com plataformas como Pornhub, agora se vê em um momento crítico de redefinição, onde a transparência e a colaboração serão essenciais para sua sobrevivência e relevância.
Perguntas em Aberto e o Risco da Perda
O que resta incerto é se a atual liderança conseguirá restaurar a confiança e a estabilidade necessárias para a fundação prosperar, ou se as acusações mútuas e a disputa de poder irão, em última instância, diluir o impacto e o legado de Tom of Finland. A capacidade da fundação de atrair e reter talentos, tanto em sua equipe quanto entre os artistas que apoia, dependerá da resolução dessas tensões internas e da restauração de um ambiente de trabalho colaborativo e transparente. A questão financeira, embora o conselho cite captação de recursos recentes, permanece um ponto de interrogação em meio a despesas que superam as receitas.
O futuro da Tom of Finland Foundation, e por extensão a preservação de um capítulo crucial da história da arte queer, paira na balança. A forma como a organização navegará por essas águas turbulentas, e se conseguirá honrar a visão de Laaksonen e o trabalho de Dehner em proteger esse legado, será crucial. A comunidade artística e os admiradores de Tom of Finland estarão observando atentamente os próximos passos, na esperança de que a paixão que impulsionou a criação da fundação prevaleça sobre as disputas que agora a ameaçam. A perda de um espaço como a Tom House, ou a descontinuidade de programas que nutriram gerações de artistas, seria um golpe significativo.
A Tom of Finland Foundation, um farol para a arte queer e a cultura visual, encontra-se em uma encruzilhada. A batalha pela sua alma e governança, travada entre o cofundador Durk Dehner e o conselho administrativo, expõe as fragilidades e os desafios inerentes à gestão de instituições culturais que lidam com legados complexos e sensíveis. Resta saber se a fundação conseguirá superar as acusações de assédio e as divergências sobre conformidade legal para honrar plenamente a visão de Touko Laaksonen e garantir que sua obra continue a inspirar e provocar, ou se a disputa interna acabará por obscurecer o brilho de um dos artistas mais influentes do século XX.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





