A busca por um status, antes marcada pela sobriedade e tons pastel, deu lugar a uma explosão de purpurina e brilho. Objetos cotidianos, de canecas a capas de celular, e até mesmo a comida, agora são cobertos por pedrarias coloridas, em um fenômeno estético que se espalha pelas redes sociais e pela cultura pop. Essa febre decorativa, que foge deliberadamente da seriedade, tem nome: 'bedazzling', que se refere à prática de adornar superfícies com gemas e pedrarias.

O Brilho como Expressão

O 'bedazzling' se nutre do 'whimsymaxxing', uma estética que leva ao extremo o lúdico e o extravagante, abraçando conscientemente o que é divertido e, por vezes, aparentemente inútil. A ideia central é maximizar o prazer do cotidiano, reconectando-se com a alegria infantil de customizar objetos com materiais brilhantes, sem se preocupar com a praticidade. Um marco dessa tendência foi a festa Y2K de Kylie Jenner, onde uma torta coberta de strass gerou um efeito cascata em redes sociais, incentivando marcas e usuários a replicarem a estética. No entanto, o 'whimsymaxxing' transcende a viralização de uma imagem, respondendo a uma necessidade cultural mais profunda de encontrar formas de romantizar o pouco que possuímos e de criar pequenos prazeres em meio à incerteza econômica e à pressão pela produtividade.

A Contracultura da Otimização

Por anos, a narrativa predominante de sucesso esteve atrelada à eficiência: acordar cedo, trabalhar incansavelmente e otimizar cada aspecto da vida. Em contrapartida, essa tendência extravagante, colorida e aparentemente supérflua oferece uma válvula de escape e uma fantasia 'naif' contra a cultura da otimização. Ela representa uma reivindicação do prazer pelo prazer, um 'ars gratia artis' adaptado aos tempos modernos, onde o brilho e a decoração sem aparente função desafiam a ideia de que elegância exige contenção. O que antes poderia ser considerado 'kitsch' ou de mau gosto, hoje se transforma em uma forma de expressão pessoal e de afirmação de identidade.

Do Minimalismo à Exuberância

Para compreender essa virada estética, é preciso olhar para o passado recente. Boa parte da década de 2010 foi dominada pelo minimalismo, onde 'menos era mais'. Cores neutras, armários cápsula, maquiagem discreta e espaços 'clean' eram sinônimos de sofisticação e bom gosto, reforçados pelas redes sociais com seus feeds monocromáticos e composições perfeitas. Contudo, quando uma estética se consolida como regra, o que foge a ela naturalmente ganha atratividade. Essa 'nota discordante' não é nova; o kitsch, com seu ornamentalismo e excentricidade, sempre habitou um terreno ambíguo entre o mau gosto e o prazer estético. A exuberância atual é, em parte, uma reação a essa saturação minimalista, uma busca por algo que se destaque e que transmita uma sensação de alegria e abundância, mesmo que apenas visual.

O Que o Brilho Revela?

A proliferação do 'bedazzling' e do 'whimsymaxxing' sugere uma cultura que, diante da instabilidade econômica e da pressão constante por produtividade, busca refúgio em formas de prazer mais imediatas e visuais. É uma forma de injetar fantasia no cotidiano, de afirmar a individualidade em um mundo cada vez mais padronizado e de rejeitar a austeridade como único símbolo de valor. A questão que fica é: será que essa busca por brilho é apenas uma fase passageira, um eco da nostalgia Y2K, ou um indicativo mais profundo de como a sociedade contemporânea redefine o que significa status e bem-estar em tempos de incerteza?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka