O Brasil já soma 177 mil drones oficialmente cadastrados na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), com cerca de 10 mil novos registros a cada mês. O número, apresentado em audiência pública na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado, dimensiona um mercado em franca expansão, mas que opera em um ambiente de incerteza regulatória e estratégica.
A iniciativa, proposta pelo senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), reuniu governo, Força Aérea e empresas para debater a criação de um marco legal para o setor. A leitura é clara: o crescimento orgânico, impulsionado por aplicações do agronegócio à segurança pública, atingiu um ponto em que a ausência de uma política nacional coordenada se tornou o principal obstáculo ao seu desenvolvimento.
O paradoxo da inovação sem estratégia
Os desafios listados durante o debate desenham um cenário paradoxal. Enquanto a tecnologia avança, a estrutura de suporte do país não acompanha. Representantes do governo citaram entraves clássicos da economia brasileira: alta carga tributária, falta de incentivos para a cadeia produtiva local, escassez de mão de obra qualificada e acesso limitado a financiamento. Não se trata de falta de regulação, mas da ausência de uma visão estratégica.
As propostas do setor privado, representadas pela associação ABDrone, reforçam essa percepção. O pleito não é por desregulamentação, mas por uma política industrial ativa, com redução de impostos sobre componentes, apoio a pequenos empreendedores e, crucialmente, uma melhor integração entre os órgãos anuentes — Anac, Decea (controle do espaço aéreo) e Anatel. O que se busca é um ecossistema coeso, não um emaranhado de regras conflitantes.
Soberania e segurança em jogo
A discussão transcende a esfera puramente econômica. Para o Major-Brigadeiro-do-Ar Frederico Casarino, o desenvolvimento de drones nacionais é uma questão de soberania. A frase “o melhor parceiro do Brasil é o próprio Brasil” ecoa a preocupação com a dependência de tecnologias estrangeiras, um risco estratégico e de segurança de dados, como apontou o CEO da SkyDrones, Ulf Bogdawa.
Ao mesmo tempo, a segurança operacional define o próximo passo da evolução do mercado, especialmente para a logística. Manoel Coelho, da Speedbird Aero, destacou que o Brasil tem condições técnicas para ampliar as operações, mas precisa resolver a integração entre drones e aeronaves tripuladas. A viabilidade de um delivery aéreo em larga escala depende de sistemas de comunicação e identificação que garantam a segurança do espaço aéreo compartilhado.
O debate no Senado é, portanto, mais do que um passo para a criação de uma lei. É o início da definição sobre qual papel o Brasil pretende ocupar no futuro da aviação não tripulada: o de mero consumidor de tecnologia importada ou o de protagonista com uma indústria robusta e autonomia estratégica. A resposta a essa pergunta definirá a altitude do voo do setor nos próximos anos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





