O fenômeno El Niño, previsto para intensificar seus efeitos entre 2026 e 2027, demandará adaptações significativas no setor agrícola brasileiro. A Embrapa, principal órgão de pesquisa agropecuária do país, compilou um conjunto de recomendações que visam mitigar os impactos climáticos, que se apresentarão de forma distinta em cada região do Brasil. No Sul, o cenário é de chuvas mais volumosas e concentradas, com potencial para alagamentos, erosão e dificuldades na logística de plantio e colheita. Culturas como trigo, arroz, soja, milho e hortaliças estão particularmente expostas. Em contrapartida, o Centro-Oeste, com exceção de partes do Mato Grosso do Sul, e o Nordeste deverão enfrentar períodos de seca e temperaturas elevadas, exigindo estratégias de conservação hídrica e reavaliação de culturas. O Norte, por sua vez, pode sofrer com a redução do nível dos rios, afetando transporte e atividades aquáticas e de várzea.

Adaptação Regional é a Chave

A estratégia da Embrapa se baseia na diversidade de cenários climáticos. Para o Centro-Oeste, recomenda-se a flexibilização do planejamento da safrinha, considerando culturas alternativas de menor risco como sorgo e milheto, caso o plantio da soja atrase. No Nordeste, a ênfase recai sobre a ampliação da capacidade de armazenamento de água, com o uso de cisternas e barragens, aproveitando a condição hídrica inicial mais favorável que em 2015/2016. No Norte, o ajuste do plantio de arroz de várzea ao regime de vazante e o controle da drenagem são cruciais. Já no Sudeste, o foco é o monitoramento de fases críticas de culturas como o café, especialmente a floração e o enchimento de grãos, que são sensíveis à escassez hídrica e ao calor. No Sul, para o arroz irrigado, o ajuste na semeadura e a garantia de drenagem eficiente são essenciais para combater doenças como a brusone.

Conservação do Solo e Bioinsumos como Aliados

Em todas as regiões, a adoção de práticas conservacionistas emerge como um pilar fundamental para aumentar a resiliência do sistema produtivo. Rodrigo Garcia, da Embrapa Agropecuária Oeste, destaca que o investimento em tecnologia e práticas que protegem o solo, como o plantio direto e a rotação de culturas, pode superar os desafios impostos pela crescente recorrente de eventos climáticos extremos. No Sudeste, a pesquisa aponta para a importância da recuperação de áreas degradadas e o uso de bioinsumos para fortalecer a base biológica dos sistemas. Ederson Jesus, da Embrapa Agrobiologia, ressalta que um solo coberto e bem manejado, aliado ao uso de insumos biológicos, confere às plantas maior capacidade de enfrentar períodos de déficit hídrico e altas temperaturas.

Mitigando Riscos e Fortalecendo a Resiliência

A orientação geral da Embrapa é que produtores e gestores rurais adaptem suas decisões às condições específicas de cada propriedade, antecipando os efeitos do El Niño. O objetivo é reduzir a exposição de lavouras e rebanhos aos extremos de chuva, seca e calor. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) é uma ferramenta crucial nesse processo, indicando as janelas de plantio mais seguras. A antecipação do plantio, a conservação do solo e o planejamento cuidadoso do uso da água são estratégias unificadoras que transcendem as particularidades regionais, buscando garantir a sustentabilidade e a produtividade do agronegócio brasileiro frente a um clima cada vez mais imprevisível.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Agricultura

Ainda que a Embrapa ofereça um guia robusto, a imprevisibilidade inerente aos fenômenos climáticos como o El Niño deixa margens para incertezas. A eficácia das medidas recomendadas dependerá da capacidade de implementação em larga escala e da resposta específica de cada ecossistema agrícola. A observação contínua dos padrões climáticos e a flexibilidade para ajustar as estratégias serão cruciais nos próximos meses. O cenário reforça a necessidade de investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento, bem como na disseminação de conhecimento para que o setor agrícola brasileiro possa navegar com maior segurança por ciclos climáticos desafiadores.

A preparação antecipada e a adoção de práticas adaptativas são essenciais para enfrentar os desafios impostos pelo El Niño, garantindo a resiliência e a continuidade da produção agrícola brasileira diante de um cenário climático em constante mutação. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital