Economistas brasileiros começam a quantificar os danos do fenômeno climático El Niño sobre o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Segundo levantamento do Banco Central, a expectativa mediana aponta para um acréscimo de 0,3 ponto percentual na inflação de 2026 e 0,4 ponto no ano de 2027, um movimento que ainda não foi plenamente absorvido pelos modelos de mercado.

A inclusão do tema no questionário pré-Copom reflete a preocupação crescente com a oferta. Embora o mercado já tenha incorporado parte dessa pressão nos preços, a incerteza permanece elevada, mantendo as projeções de inflação significativamente acima da meta oficial de 3% estabelecida pela autoridade monetária.

O mecanismo de transmissão do choque climático

O impacto do El Niño no Brasil ocorre principalmente através da volatilidade dos preços de alimentos. O aquecimento das águas do Pacífico altera o regime de chuvas, com secas severas no Nordeste que prejudicam a produtividade de culturas essenciais como café, açúcar e frutas cítricas. Históricos de fenômenos similares, como o ciclo de 2015–2016, servem como base para as projeções atuais de alta inflacionária.

Analistas do Citi estimam que a inflação de alimentos pode subir cerca de 1,47 ponto percentual nos dois meses seguintes ao choque. A transmissão desses preços para o consumidor final não é apenas imediata; ela cria uma inércia que pode se estender para o ano subsequente, dependendo da velocidade com que o sistema produtivo se ajusta e da capacidade de absorção dos estoques.

Riscos para a credibilidade da política monetária

O desafio para o Banco Central, sob a presidência de Gabriel Galípolo, reside em distinguir choques de oferta temporários de efeitos de segunda ordem. O cenário atual é agravado pela concomitância de tensões geopolíticas que elevam o preço do petróleo, criando um ambiente de múltiplos choques simultâneos em um mercado de trabalho que já apresenta restrições de oferta.

A desancoragem das expectativas é a principal preocupação dos economistas. O BTG Pactual alerta que, se a política de flexibilização de juros se prolongar excessivamente diante desses choques, o risco de que a inflação se torne estrutural aumenta consideravelmente, dificultando o retorno à meta no horizonte relevante.

Implicações para o ecossistema econômico

A convergência da inflação para a meta oficial, agora projetada apenas para o primeiro trimestre de 2028, sinaliza um horizonte de incerteza prolongado. Reguladores e investidores observam com cautela como a política monetária reagirá a um cenário onde a oferta é limitada por fatores exógenos, exigindo um equilíbrio delicado entre o suporte ao crescimento e o controle de preços.

Para o setor privado, o planejamento financeiro torna-se mais complexo. A volatilidade dos insumos agrícolas e a incerteza sobre a trajetória da Selic obrigam empresas a reavaliarem suas estratégias de precificação e proteção contra riscos, dado que o choque climático não é um evento isolado, mas parte de uma conjuntura macroeconômica mais volátil.

O que observar nos próximos meses

A principal incógnita reside na magnitude da persistência desses preços e na reação das expectativas de longo prazo. A capacidade do Banco Central de manter a credibilidade enquanto modera a resposta a choques de oferta será o fiel da balança para os próximos ciclos da Selic.

O monitoramento das safras e a evolução do fenômeno no segundo semestre serão determinantes para ajustar as projeções de 2027. O mercado aguarda sinais sobre até que ponto a inércia inflacionária será contida pela atual postura da autoridade monetária.

O cenário desenhado pelos economistas sugere que o El Niño não é apenas um evento meteorológico, mas uma variável central na equação de juros do Brasil. A forma como essa pressão será gerenciada definirá o ritmo da economia nos próximos anos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney