A confirmação da chegada do El Niño por órgãos meteorológicos internacionais colocou o agronegócio brasileiro sob uma nova lente de risco. Em relatório divulgado na última segunda-feira (15), a XP Investimentos detalhou como o fenômeno climático pode impactar cinco empresas listadas na Bolsa, alterando as perspectivas de produtividade e rentabilidade para o ciclo 2026/2027. A análise busca mensurar os efeitos potenciais de um clima atípico, utilizando como base comparativa eventos severos passados, como as safras de 2015/2016 e 2023/2024.

Segundo o documento, o impacto não é uniforme, variando drasticamente conforme a localização geográfica das lavouras e o tipo de cultura. Enquanto produtores de grãos concentrados no Norte e Centro-Oeste enfrentam a ameaça de estiagens, empresas com forte presença no Sul podem encontrar um cenário de recuperação. A tese central da XP é que, independentemente da capacidade produtiva teórica, a volatilidade climática impõe um novo patamar de gestão de risco para as companhias do setor.

Vulnerabilidade e Proteção no Setor Sucroenergético

O segmento de açúcar e etanol é apontado como um dos mais expostos. A XP destaca que o El Niño pode reduzir o rendimento dos canaviais brasileiros, além de afetar a oferta global em países como Índia e Tailândia. No curto prazo, a instituição mantém cautela, projetando preços pressionados pela moagem acelerada, embora reconheça que quebras de safra internacionais possam valorizar o açúcar no longo prazo.

As estratégias comerciais adotadas pelas usinas de capital aberto revelam visões distintas sobre o mercado. A Jalles Machado optou por uma postura defensiva, fixando preços para quase toda a sua safra. Em contraste, a São Martinho mantém uma parcela significativa de sua produção exposta às oscilações diárias de preços, uma escolha que reflete diferentes apetites ao risco diante da incerteza climática e da pressão sobre as commodities.

O Desafio da Irrigação nas Culturas de Grãos

Para SLC Agrícola e BrasilAgro, o principal temor é o regime de chuvas irregular nas regiões Norte e Nordeste. Com uma fatia considerável de suas terras nessas áreas, ambas as empresas buscam na irrigação uma forma de mitigar perdas. A SLC, por exemplo, planeja expandir sua área irrigada para 62 mil hectares, enquanto a BrasilAgro mantém 13,8 mil hectares sob sistemas artificiais.

Entretanto, a XP avalia que a relação de risco e retorno permanece desfavorável para essas companhias. A análise sugere que, apesar dos investimentos em tecnologia, as perdas potenciais de produtividade e a pressão sobre o fluxo de caixa livre parecem mais acentuadas para a SLC. A ausência de proteções financeiras (hedges) em parte do portfólio da BrasilAgro também adiciona uma camada de incerteza ao cenário de 2026/2027.

A Assimetria Positiva da 3Tentos

Na contramão das produtoras de grãos, a 3Tentos é vista como a empresa com o perfil operacional mais promissor diante do fenômeno. O histórico de secas no Rio Grande do Sul, que prejudicou a companhia em ciclos anteriores, é substituído pela expectativa de chuvas mais regulares. Como a receita da empresa está profundamente ligada ao mercado gaúcho, o retorno da umidade ao solo deve impulsionar tanto a produtividade quanto a demanda por insumos.

A XP classifica o cenário para a 3Tentos como assimetricamente positivo. A melhora na originação de grãos e o aumento do esmagamento de soja são vistos como gatilhos naturais para a recuperação operacional da empresa, caso as previsões meteorológicas se confirmem ao longo do ano.

Implicações para o Mercado e Investidores

O relatório da XP reforça que o mercado financeiro já começou a precificar as oscilações climáticas, mesmo com o tamanho real dos prejuízos sendo incerto. A capacidade de cada empresa em gerenciar seus estoques e travas de preço será determinante para a performance das ações nos próximos trimestres. Investidores devem monitorar não apenas o clima, mas a resiliência operacional das empresas frente a eventos extremos.

Para o ecossistema do agronegócio brasileiro, o episódio sublinha a crescente dependência de tecnologias de mitigação, como a irrigação de precisão. A tese da XP convida a uma reflexão sobre a diversificação geográfica e a importância de estratégias comerciais ágeis em um mercado cada vez mais suscetível a mudanças globais de temperatura.

A incerteza permanece como a variável dominante. O comportamento das chuvas no final de 2026 será o teste definitivo para as projeções dos analistas e para a eficácia das estratégias de proteção adotadas pelas companhias. O mercado agora observa se a realidade no campo seguirá os modelos matemáticos ou se novas surpresas climáticas exigirão revisões rápidas nas teses de investimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney