A construção de data centers, um tema cada vez mais central nas eleições americanas, pode ter seu futuro decidido não em Washington, mas nas assembleias legislativas estaduais e câmaras municipais. Enquanto candidatos ao Congresso focam em debates nacionais, as decisões sobre infraestrutura energética e regulamentação de novos empreendimentos recaem sobre autoridades eleitas em níveis subnacionais, com potencial impacto direto e significativo sobre o crescimento econômico impulsionado pela inteligência artificial (IA).

O investimento em IA já responde por uma parcela substancial do Produto Interno Bruto (PIB) americano, com projeções indicando que o setor continuará a ser um motor de crescimento nos próximos anos. JPMorgan estima que investimentos ligados à IA foram responsáveis por cerca de um quinto do crescimento do PIB no último ano, e analistas do ING preveem que a IA responderá por um terço do crescimento em 2026. Diante desse cenário, qualquer sinalização política que possa afetar a expansão dessa infraestrutura crítica, como a construção de mais data centers, torna-se um fator econômico de peso.

O peso das decisões locais

A dinâmica de poder em torno dos data centers evidencia a influência das eleições estaduais e locais. Um exemplo recente ocorreu na Virgínia, onde a Amazon reviu drasticamente seus planos para data centers no Condado de Loudoun após um acordo com autoridades locais, em meio a forte oposição de moradores. A gigante de tecnologia, que havia adquirido terrenos por US$ 427 milhões, concordou em reverter a maior parte da área para desenvolvimento residencial e misto, além de doar terras para um centro comunitário e destinar US$ 5 milhões a um fundo habitacional. Este caso demonstra como a resistência local, articulada e amplificada por meio de processos políticos municipais, pode frustrar grandes investimentos.

No Texas, um dos principais polos da indústria de IA, o governador Greg Abbott, que antes era um defensor da construção de data centers, passou a adotar uma postura mais cética em sua campanha de reeleição, enfrentando críticas de sua oponente democrata. Essa mudança reflete a percepção de que a oposição a projetos de grande escala pode se tornar um trunfo eleitoral em disputas locais. Especialistas apontam que os riscos para a expansão dos data centers advêm mais de moratórias locais, revisões ambientais e gargalos na conexão à rede elétrica do que de potenciais legislações federais, que tendem a ser mais lentas e sujeitas a debates prolongados.

Implicações para o futuro da IA

As eleições de meio de mandato nos EUA, com foco em disputas estaduais e locais em estados como Texas, Carolina do Norte e do Sul, e no Meio-Oeste, podem definir o futuro da infraestrutura de IA. Se a postura contrária à construção de data centers se mostrar politicamente vantajosa, é provável que a regulação desses empreendimentos se torne um tema central na corrida presidencial de 2028. Essa antecipação de um cenário político potencialmente mais hostil pode ter levado a um aumento na construção de data centers no meio do ano, como uma forma de adiantar projetos antes de possíveis restrições.

Embora a oposição local represente um desafio, os desenvolvedores buscam mitigar esse conflito ao demonstrar os benefícios econômicos dos data centers, como a redução de impostos locais e o financiamento de escolas e estradas. Mesmo que moratórias sejam impostas, o impacto econômico imediato pode ser limitado, pois o valor principal dos data centers reside nos equipamentos de computação, cujo investimento se concretiza com um certo descompasso temporal em relação à construção física. Assim, o impulso atual de investimentos em negócios de TI deve sustentar a economia nos próximos anos.

Perguntas em aberto

Apesar da resiliência observada, o futuro do ciclo de investimento em IA ainda levanta questões. A persistência de déficits energéticos, a escassez de mão de obra qualificada para a construção e a crescente pressão política contra novos empreendimentos podem, paradoxalmente, prolongar o ciclo de crescimento, reduzindo o risco de uma bolha especulativa. A forma como os resultados das eleições estaduais e locais se traduzirão em políticas concretas e a capacidade de desenvolvedores e governos encontrarem um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e preocupações ambientais e comunitárias são fatores cruciais a serem observados.

O cenário econômico impulsionado pela IA, embora robusto, está sujeito a uma série de variáveis políticas e infraestruturais que transcendem o âmbito federal. A atenção voltada para as eleições de meio de mandato nos EUA, com seu foco em disputas estaduais e locais, sublinha a crescente importância dessas esferas de poder na definição do futuro econômico. A forma como essas tensões serão resolvidas determinará o ritmo e a sustentabilidade do boom da IA, com implicações que podem reverberar por toda a economia americana e global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune