A 2.400 metros de altitude, o ar rarefeito de Aspen, no Colorado, parece afinar os sentidos. A percepção do que se vê e ouve ganha outra textura. Foi sob essa premissa atmosférica que o Aspen Art Museum realizou a segunda edição do AIR, um ambicioso festival de arte, performance e debates que tomou a cidade montanhosa, propondo uma nova gramática para a experiência artística.

Enquanto a Aspen Art Week tradicionalmente se concentra em captação de recursos e no mercado, o AIR se posiciona como um contraponto intelectual e experimental. Com o tema “Figuras numa Paisagem”, o festival usou o cenário das Montanhas Rochosas não como pano de fundo, mas como protagonista, forçando artistas e público a saírem do conforto da galeria para confrontar a arte em seu estado mais elementar: um corpo, um som ou um objeto em meio à imensidão.

A paisagem como personagem

A tese do festival foi posta à prova desde o primeiro dia. Uma gôndola transportava o público às 9 da manhã para o topo da Aspen Mountain, a mais de 3.300 metros de altitude. Ali, os irmãos do duo musical Los Thuthanaka, com trajes ornamentados, evocavam sons hipnóticos de sua herança andina. Em dado momento, viraram as costas para a audiência e tocaram para as montanhas, num gesto que resumia a intenção do AIR: a natureza não era espectadora, mas interlocutora.

Essa fusão entre obra e ambiente se repetiu em diferentes escalas. A instalação de Matthew Barney, em um rancho, usava a iconografia do futebol americano e do Velho Oeste para explorar fantasias de violência, com uma estrutura precária de tubos que, ao olhar atento, revelavam-se ser de bronze e aço, não de PVC. Já a “filme-performance” de Lucy Raven projetou a demolição de uma barragem em uma tela de 9 metros no meio de um prado alpino. Ao anoitecer, as montanhas ao fundo se confundiam com as da tela, criando um palimpsesto visual vertiginoso, como detalha a reportagem da ARTnews que cobriu o evento.

Do sublime ao detrito

O festival, contudo, não se limitou à beleza sublime da paisagem. A programação explorou também os seus antípodas. O cenário para a performance de Ivan Cheng foi o centro de resíduos sólidos do condado, entre montanhas de sucata. Ali, em uma “situação ao vivo para a câmera”, Cheng mesclou monólogo, dança e aeróbica, seguido por drones que transmitiam sua imagem em tempo real para uma tela. A performance, que tocava em temas como a busca por afirmação paterna, levantou uma questão fundamental: a complexa produção tecnológica servia à obra ou o material teria mais força em um palco simples?

Essa tensão entre o grandioso e o íntimo, o tecnológico e o analógico, permeou todo o evento. No museu, a exposição de Adrián Villar Rojas justapunha um crânio de tricerátops em bronze em tamanho real a uma simulação de caverna que incorporava grades e pixels de sua renderização digital — o tempo profundo e o presente imediato em diálogo. Em contraste, a performance de Lyle Ashton Harris no terraço do museu foi de uma crueza emocional avassaladora, na qual o artista processava o luto pela morte de um ex-parceiro. De um lado, a escala geológica; do outro, a escala da dor humana.

Ao final, com a farsa musical de Camille Henrot no histórico Wheeler Opera House e a música de órgão de Kali Malone em uma capela modernista, o AIR pareceu fechar o ciclo. O festival sugere que, ao deslocar a arte para ambientes extremos — seja o topo de uma montanha ou um depósito de lixo —, algo novo é exigido da atenção. A questão que permanece é se essa jornada transforma a obra ou apenas amplifica o silêncio e a magnitude que já estavam lá.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews