O agronegócio brasileiro atravessa um momento de inflexão, pressionado por uma combinação de barreiras comerciais externas e um ciclo de crédito mais rigoroso internamente. Durante o evento Agro360º, realizado em São Paulo, lideranças do setor e especialistas apontaram que a falha em atender exigências sanitárias da União Europeia coloca em xeque a exportação de carnes e derivados a partir de setembro. A urgência da situação foi destacada pelo ex-governador Ronaldo Caiado, que classificou o bloqueio como um sinal de desmoralização, dado que outros países latino-americanos conseguiram se adequar às normas europeias a tempo.
A resposta a esse cenário exige uma coordenação imediata entre governo e setor privado para reverter a decisão. Segundo Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS, o tempo para adaptação é exíguo e a capacidade de resposta do Brasil será testada nos próximos meses. O episódio ilustra a crescente complexidade do mercado internacional, onde exigências regulatórias, muitas vezes ligadas a critérios de sustentabilidade e sanidade, tornam-se barreiras de entrada efetivas para produtos brasileiros.
Desafios logísticos e custos de insumos
Além da regulação, a volatilidade geopolítica impõe custos severos à cadeia produtiva. Eduardo Monteiro, da Mosaic, destacou que a instabilidade no Oriente Médio impactou drasticamente a logística de fertilizantes. O preço do enxofre, componente essencial, saltou de US$ 500 para US$ 1.250 por tonelada devido à interrupção de fluxos logísticos por 11 semanas. Esse choque de custos, somado às incertezas globais, força o produtor a buscar ganhos de eficiência em um ambiente onde a margem de erro diminuiu consideravelmente.
O novo ciclo do crédito agrícola
Dentro da porteira, a preocupação central reside na qualidade da carteira de crédito. Após um período de expansão acelerada e alavancagem elevada entre 2020 e 2024, o setor enfrenta agora juros mais altos e margens comprimidas. Alan Glezer, da Agrolend, observou que a busca por crescimento rápido gerou um nível de risco que agora se reflete na inadimplência. Executivos do setor financeiro, como João Cézar Magalhães Jr., do Banco Original, alertam que o pico da inadimplência pode ser apenas o início de um período de ajuste prolongado, exigindo cautela dos financiadores.
Transformação produtiva e biocombustíveis
A transição para modelos de agricultura regenerativa ganha tração não apenas por imperativos ambientais, mas pela necessidade de viabilidade econômica. Luis Barbieri, da Raiar Orgânicos, defende que a mudança no modelo de produção está sendo impulsionada pela redução de custos e ganho de eficiência operacional. Paralelamente, o mercado de biocombustíveis surge como uma avenida de crescimento, com Rafael Abud, da FS Fueling Sustainability, ressaltando que o aumento dos mandatos de mistura de etanol em diversos países sinaliza um ciclo de investimentos de longo prazo para atender essa demanda crescente.
Perspectivas e incertezas
O futuro do agronegócio depende da capacidade de navegar entre a conformidade regulatória internacional e a gestão de riscos financeiros internos. A transição para práticas sustentáveis e a diversificação de mercados são movimentos estratégicos que ganharão protagonismo. Resta observar como a cadeia produtiva reagirá à necessidade de maior transparência e à pressão por margens mais saudáveis em um cenário de crédito restrito. A resiliência do setor será colocada à prova enquanto o mercado aguarda os desdobramentos das negociações com a União Europeia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





