A corrida pela Inteligência Artificial na América Latina revela um descompasso singular no Brasil entre a ambição estratégica e a capacidade de execução. Enquanto mercados vizinhos como México e Colômbia focam na experimentação tecnológica como motor de inovação, o cenário brasileiro é marcado por um pragmatismo operacional, onde a IA é vista primordialmente como uma alavanca para redução de custos e otimização de fluxos de trabalho internos.

Segundo dados da OutSystems de 2026, 44% das empresas brasileiras priorizam a eficiência operacional, enquanto 41% dos líderes de TI estão concentrados em automação de backoffice. Esse movimento, embora necessário, expõe um desafio estrutural: a transformação digital no país está menos ligada à criação de novos modelos de negócio e mais à resolução de gargalos históricos de integração.

O peso dos sistemas legados

A singularidade brasileira reside na necessidade urgente de modernizar infraestruturas obsoletas. Enquanto apenas 7% das empresas mexicanas e 4% das colombianas apontam a modernização de sistemas como prioridade, 29% das organizações brasileiras dedicam seus recursos a essa frente. Esse dado indica que o país está em uma etapa de preparação básica, onde a IA, embora desejada, encontra dificuldades para ser implementada em ambientes que ainda sofrem com a fragmentação de dados e a rigidez de sistemas legados.

Essa base tecnológica defasada atua como uma barreira que impede que a IA ganhe escala. O uso declarado da tecnologia, que segundo a FGVcia já atinge 80% das empresas, esconde uma realidade de baixa intensidade: 75% dessas organizações utilizam ferramentas de IA de forma muito limitada. O cenário sugere que a tecnologia está presente no discurso estratégico, mas ainda não foi incorporada à rotina produtiva das companhias.

O desafio da cultura organizacional

O obstáculo mais crítico para a expansão da IA no Brasil superou a barreira financeira. De acordo com o levantamento da OutSystems, a resistência cultural à adoção de novas tecnologias é o entrave mais citado por gestores locais, posicionando-se à frente das restrições orçamentárias. Diferente de outros mercados, onde a escassez de capital limita o avanço, no Brasil o impasse é de absorção organizacional.

Essa resistência cultural reflete a dificuldade das empresas em reorganizar áreas, alinhar prioridades e integrar departamentos que historicamente operam em silos. A tecnologia, por si só, não consegue romper essas barreiras estruturais se a organização não estiver preparada para alterar seus fluxos de trabalho. A IA, portanto, acaba sendo usada como um suporte periférico, mantendo-se isolada de uma transformação digital mais profunda e sistêmica.

Implicações para a competitividade

A dependência de sistemas de gestão integrada (ERP) e de inteligência analítica reforça que a IA no Brasil ainda é uma ferramenta de suporte ao alinhamento estratégico, e não um motor de disrupção. Para os stakeholders, essa realidade impõe a necessidade de um olhar mais atento à gestão da mudança. Reguladores e lideranças corporativas precisam compreender que a eficácia da IA depende da qualidade da base operacional e da disposição das equipes em adotar novos processos.

O impacto dessa lentidão pode ser sentido na competitividade global das empresas brasileiras, que correm o risco de acumular dívida técnica enquanto o mercado internacional avança em direção a modelos de IA mais integrados e autônomos. A modernização, nesse sentido, não é apenas um upgrade de software, mas uma revisão crítica da estrutura organizacional que sustenta a operação.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a velocidade com que as empresas brasileiras conseguirão transpor a barreira cultural e a fragmentação de dados. A clareza sobre o valor da IA já existe, mas a capacidade de execução permanece como a variável mais instável da equação. O mercado deve observar se a pressão por eficiência continuará sendo o único motor ou se o surgimento de novos casos de uso forçará uma aceleração na modernização.

A jornada brasileira não é de atraso, mas de bloqueio estrutural. Superar esse momento exigirá mais do que investimento em ferramentas de ponta; demandará uma reconfiguração profunda na forma como as empresas brasileiras coordenam suas operações diárias e integram tecnologias emergentes em estruturas ainda marcadas por silos e rigidez. O sucesso dependerá da capacidade de transformar o pragmatismo atual em uma estratégia de escala consistente.

Com reportagem de MIT Tech Review Brasil

Source · MIT Tech Review Brasil