O vento salgado de Cagliari, na Sardenha, sopra sobre a base da Luna Rossa, um centro de excelência em vela que, por uma semana, se transforma em um portal para as profundezas do oceano. É ali que o fotógrafo Enzo Barracco apresenta seu trabalho, parte da exposição itinerante Ocean&Climate Village, uma iniciativa da UNESCO IOC e do grupo Prada, através do projeto SEA BEYOND. O local, palco de inovações náuticas, torna-se um cenário inusitado para a imersão em um mundo que, segundo Barracco, esquecemos que nos pertence: o oceano. Em meio a barcos de alta performance e tecnologia de ponta, crianças e adultos são convidados a tocar em corais, entender a respiração dos peixes e, sobretudo, a contemplar imagens que revelam a beleza e a fragilidade da vida marinha.
Barracco, um "SEA BEYONDer" – como são chamados os embaixadores do projeto –, traz para a exposição fotografias capturadas nas águas cristalinas do Havaí e nas paisagens gélidas do Ártico. Sua jornada, que o levou a revisitar as expedições de Shackleton na Antártida, o ensinou sobre a capacidade infinita da natureza em surpreender. "Nada pode me surpreender mais", ele pensava, diante da majestade antártica, mas a natureza, com sua precisão temporal e respeito, sempre encontra um jeito de nos maravilhar. A exposição não é apenas uma vitrine de imagens; é um convite à reconexão, um lembrete de que, em essência, somos todos "animais marinhos que apenas nos esquecemos".
Um Diálogo Subaquático
A escolha de Cagliari, com seu porto vibrante, não é acidental. A exposição ocupa um espaço espelhado na base da Luna Rossa, refletindo o próprio mar que a circunda. As fotografias de Barracco – ondas, criaturas marinhas, pores do sol sobre o Pacífico – dialogam diretamente com a paisagem externa, criando uma ponte entre a arte e o ambiente natural. Seus livros anteriores, como "The Blue on Fire: Hawai‘I" e "The Noise of Ice | Antarctica", já prenunciavam essa profunda conexão com os elementos aquáticos e gelados do planeta. Em Cagliari, ele apresenta o resultado de um ano de imersão no Havaí, capturando os oceanos em suas diversas facetas sazonais. "Se eu vou no verão, vejo apenas uma coisa", ele reflete, "eu queria ser muito honesto e mostrar uma boa representação do inverno, do verão e de todas as estações com seus diferentes animais". A força indomável de uma onda, que parece fluida e bela, revela uma solidez surpreendente ao impacto, uma dualidade que Barracco busca eternizar em suas lentes.
A Arte da Simbiose e a Fotografia de Tubarões
Fotografar o mundo subaquático exige uma abordagem única, uma simbiose com a natureza. Barracco, experiente freediver e fotógrafo comercial, combina essas habilidades com uma leveza e agilidade essenciais. "Você não prepara nada", ele explica, "você trabalha em simbiose com a natureza e precisa entender o que a natureza permite que você fotografe. As coisas são imprevisíveis… tudo o que acontece é muito maior do que você." A preferência por equipamentos mínimos reforça essa filosofia: ser ágil e prático é fundamental para não interferir no delicado equilíbrio do ambiente marinho. Ao invés de modelos humanos, o fotógrafo encontra nos tubarões e outras criaturas marinhas seus verdadeiros protagonistas. Ele descreve o tubarão não como um predador temível, mas como uma criatura incompreendida, refinada e bela, um ser ancestral cujos domínios habitamos como convidados. Sua técnica envolve uma aproximação respeitosa, quase um pedido de permissão, aguardando o consentimento silencioso dos animais antes de registrar suas imagens. Essa interação íntima com a vida selvagem é a essência de seu trabalho, transformando cada fotografia em um testemunho de respeito e admiração.
Conscientização pela Emoção e pela Ciência
Os números que definem as mudanças climáticas – aumento de temperaturas, elevação do nível do mar, alteração da química oceânica – são incontestáveis, mas sua comunicação eficaz ainda é um desafio. Barracco acredita no poder universal da fotografia: "Eu sempre digo que você não precisa de tradução para fotografia." Sua esperança é que seu trabalho desperte curiosidade, provoque admiração e reacenda o amor pelo oceano. "Somos todos animais marinhos, apenas nos esquecemos!" A exposição, complementada pelo design interativo de Formafantasma, expande essa mensagem. Através de modelos, vídeos e esculturas táteis, a mostra traduz processos científicos complexos – como a troca de energia e os efeitos da emissão de CO₂ – em experiências visuais concretas. Essa abordagem dupla, que une o conhecimento científico à conexão emocional proporcionada pela arte, oferece ao público uma compreensão mais profunda e íntima da importância do oceano e da urgência de protegê-lo. A arte e a ciência unem-se, não para assustar, mas para inspirar uma nova relação com o nosso planeta azul.
Perguntas no Horizonte Azul
A exposição em Cagliari, embora focada em educar e inspirar, deixa questões pairando no ar, tão vastas quanto o próprio oceano. O que mais podemos fazer, individual e coletivamente, para honrar essa conexão que Barracco nos convida a redescobrir? Como a arte pode continuar a ser uma ponte eficaz entre a ciência climática e a consciência pública, especialmente para as novas gerações que herdarão um planeta em transformação? A jornada de Barracco, desde o gelo antártico até as águas tropicais, é um testemunho da beleza resiliente da vida e um apelo silencioso à nossa responsabilidade. A experiência de estar no Ocean&Climate Village, cercado por imagens poderosas e informações educativas, é um convite para olharmos para o mar não como um recurso a ser explorado, mas como um lar compartilhado, um espelho de nós mesmos.
O que resta é a imagem das águas profundas, a lembrança de que somos parte de um ecossistema maior e a esperança de que, ao nos reconectarmos com o oceano, possamos também nos reconectar com a parte mais essencial de nós mesmos. A arte, neste contexto, não é apenas um meio de expressão, mas um farol, guiando-nos de volta a uma compreensão mais profunda de nosso lugar no mundo natural.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





