A jornada para se tornar um escritor publicado, como muitas outras carreiras criativas, é frequentemente marcada por uma intensa batalha interna com a autoconfiança e a autoestima. A autora Helen Betya Rubinstein, em sua obra "Feels Like Trouble", mergulha nessa complexa relação, desvendando como a cultura literária, com seu foco em prêmios, críticas e aclamação pública, pode inadvertidamente criar um ciclo vicioso de dependência da validação externa. A busca por ser "o próximo grande nome" ou "o autor de sucesso" muitas vezes ofusca o propósito fundamental da escrita: a comunicação e a expressão.
A armadilha da validação externa
Rubinstein narra experiências pessoais e observações de sua prática como coach para escritores, ilustrando como a autoconfiança de muitos é intrinsecamente ligada à sua produção literária. Ela relata a experiência de avaliar candidaturas para bolsas de estudo, onde currículos transbordam de publicações em pequenas revistas online e finalizações em concursos pagos, cada conquista vista como um grão de areia na esperança de que se coalizem em algo maior. Essa catalogação de feitos, embora compreensível diante da ânsia por reconhecimento, revela um anseio profundo por validação. A autora descreve a atmosfera de "desespero" e "febre de ambição" em conferências de escritores, onde a competição e o medo da irrelevância pairam no ar, transformando o espaço em um caldeirão de inseguranças.
O problema, segundo Rubinstein, reside na própria natureza da cultura que cerca a escrita. Workshops, críticas e conversas com editores tendem a ser orientados por um binário de "bom" e "ruim", "funciona" ou "não funciona". Essa dicotomia, ao invés de focar no mérito intrínseco do texto, acaba por tornar o escritor o sujeito implícito da conversa, habituando-o a escrever em busca de elogios e recompensas extrínsecas. A autora argumenta que mesmo o elogio, quando buscado incessantemente, pode se tornar prejudicial à arte, pois desvia a atenção das razões intrínsecas para criar e instaura uma dependência de "acenos na cabeça" ou "A-pluses", que se traduzem em publicações, adiantamentos e aplausos.
O ciclo do "narcisismo" e a perda do propósito
A autora contrapõe a ideia de que escritores com baixa autoestima são necessariamente menos preocupados consigo mesmos. Ela cita o psicólogo Terrence Real, para quem o "narcisismo" não se refere a um excesso de amor-próprio, mas a uma "deficiência" que leva à obsessão pela própria imagem e pela adoração externa. A cultura literária, ao atrair e criar indivíduos focados em sua autoimagem – que "olham para os espelhos de suas telas de computador em busca de alguma medida de seu valor" –, fomenta esse ciclo. A necessidade constante de validação externa, como um vício, impede que o escritor se nutra de sua própria satisfação interna.
Essa busca incessante por estima externa, argumenta Rubinstein, é um ciclo vicioso que distrai dos prazeres intrínsecos do fazer literário. Quanto mais o escritor se preocupa com a percepção alheia, mais difícil se torna o trabalho, e o motivo intrínseco para escrever diminui. Em contrapartida, a recompensa extrínseca da estima nunca é garantida, tornando o processo cada vez mais árduo e angustiante. Pesquisas demonstram que o foco em recompensas externas diminui a curiosidade, a disposição para correr riscos e, consequentemente, a criatividade. A gestão da imagem, portanto, pode levar a uma escrita "pequena", uma versão encolhida do que o escritor poderia ter sonhado.
Reencontrando o valor intrínseco na escrita
Para escapar dessa armadilha, Rubinstein sugere um redirecionamento do foco: afastar o olhar da imagem pessoal e voltar a atenção para o exterior. A pergunta central deve ser: "O que meu trabalho pode fazer? Como ele pode servir a outras pessoas?". Ao se perguntar sobre seus próprios valores como leitor e escritor – seja a valorização de uma frase bem construída, de uma emoção genuína, de uma narrativa que ofereça fuga ou que incite à reflexão –, o escritor reencontra um senso de propósito. Essa reorientação para o "porquê" de suas escolhas, tanto como leitor quanto como escritor, cultiva um senso de valor que não depende da aprovação efêmera de uma multidão ou de um prêmio, mas do significado de ter um desejo de comunicar e de realizar um ato fundamentalmente social: a escrita como uma oferta ao outro.
A autora relata um episódio em uma conferência onde um mentor, após elogiá-la como "uma escritora talentosa", a aconselhou a não escrever a história que estava desenvolvendo. Essa experiência, embora potencialmente motivada por um desejo de orientação, ressoou como uma forma de repressão, incutindo uma dúvida que a acompanharia por anos. A dissociação entre o elogio à "talento" e a desvalorização do trabalho específico demonstra como a atenção à "arte" pode, paradoxalmente, ignorar o significado do texto e a natureza interpessoal da escrita. A autoestima, nesse contexto, torna-se volátil, dependendo de fatores externos e imprevisíveis, como um jogo de bingo onde os resultados estão "em jogo".
Perguntas em aberto e o caminho adiante
A cultura literária dominante, marcada pelo "carreirismo", como aponta o crítico Christian Lorentzen, pode levar a uma gestão de imagem que se infiltra na própria escrita, achatando personagens e simplificando narrativas para garantir a aprovação do leitor. Para escritores que ainda buscam seu espaço, a "imagem pública" torna-se uma preocupação central, mesmo que de forma sutil. A autoestima, entendida como respeito ou admiração, é inerentemente externa. Quando escritores buscam "autoestima" em sessões de coaching, geralmente estão assombrados pela sensação de que seu valor reside na escrita, não por sua própria avaliação, mas por não saberem como avaliá-la fora do olhar alheio. A busca por essa estima externa, em vez de gerar satisfação, cria um ciclo vicioso onde o foco no reconhecimento rouba o prazer intrínseco do trabalho, tornando-o mais difícil e menos gratificante.
O caminho para uma autoestima mais sólida e autêntica na escrita parece residir em um afastamento deliberado da busca por aplausos e reconhecimento externo. Em vez disso, a autora propõe um retorno ao "porquê" da escrita, conectando-se com os valores intrínsecos que motivam a criação e com o desejo de comunicar e servir a um público. Essa reorientação, mais do que qualquer outra coisa, pode desenvolver um senso de valor duradouro, lembrando ao escritor que ele é um ser cheio de potencial, capaz de realizar um ato de comunicação significativo e generoso para com o leitor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





