Enquanto a digitalização de serviços públicos avança globalmente, a experiência do usuário frequentemente se torna um gargalo. Na Espanha, o município de Paterna, na região de Valência, decidiu atacar o problema de frente. A cidade anunciou a integração do novo DNI digital em seus sistemas de atendimento ao cidadão, permitindo identificação e assinatura de documentos com um smartphone. A iniciativa, reportada pelo site espanhol Xataka, busca aposentar sistemas notórios por sua complexidade.

O movimento é mais do que uma atualização tecnológica local. Ele representa um teste em campo para a futura carteira de identidade digital da União Europeia (eIDAS 2.0) e expõe uma tensão central na governança digital: a batalha entre a segurança robusta e uma usabilidade que não penalize o cidadão. Paterna aposta que é possível ter os dois, simplificando processos como obter certificados de residência ou pagar tributos.

Do labirinto burocrático à biometria

O sistema que Paterna busca substituir é um velho conhecido dos espanhóis. Plataformas como Cl@ve e Autofirma, embora seguras, transformaram trâmites simples em verdadeiras maratonas digitais. A necessidade de instalar programas específicos, lidar com incompatibilidade de navegadores, atualizar plugins de Java e depender de códigos temporários por SMS criava uma barreira de fricção que, na prática, afastava muitos cidadãos dos canais digitais.

A nova abordagem, com o aplicativo MiDNI, inverte essa lógica. Em vez de exigir que o usuário se adapte à máquina, o sistema se vale de tecnologias já presentes em seu bolso. A autenticação passa a ser feita por biometria (facial ou digital), e a assinatura de um documento se resume à leitura de um código QR. É um modelo que prioriza a simplicidade, removendo intermediários e devolvendo tempo ao cidadão, como destacou o prefeito local ao afirmar que o objetivo é “solucionar problemas, não criá-los”.

A iniciativa de Paterna, embora localizada, serve de laboratório para um desafio universal. A soberania digital não se resume a ter sistemas próprios, mas a garantir que eles funcionem para todos. Para o Brasil, que consolidou muitos serviços na plataforma Gov.br, a experiência espanhola oferece uma lição sobre a importância da “última milha”: a interface final com o usuário. O experimento de Paterna sugere que o futuro da cidadania digital pode residir menos em portais centralizados e mais em uma identidade segura e portátil, que transforma cada interação com o Estado em um processo tão simples quanto fazer um pagamento por aproximação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka