A Espanha, um país de contrastes, revela uma de suas mais marcantes divisões no mercado imobiliário. De um lado, a vibrante e cosmopolita Madrid, onde a aquisição de um imóvel é quase sinônimo de um longo relacionamento com o banco, com 94,4% das transações dependendo de financiamento hipotecário. Do outro, a mais rural e tradicional Castilla y León, onde a prática de pagar por uma casa "à tocateja", sem a necessidade de recorrer a empréstimos, ainda é a norma para a maioria, representando 59,4% das operações. Essa dicotomia, evidenciada por dados recentes do Conselho Geral do Notariado (CGN), não é apenas uma questão de números, mas um reflexo de realidades econômicas e sociais distintas que coexistem sob o mesmo céu espanhol.

O cenário geral do país, com 57,4% das compraventas de imóveis financiadas por crédito bancário em agosto, já aponta para uma dependência significativa do sistema financeiro. Contudo, a comparação entre Madrid e Castilla y León é gritante. Enquanto na capital espanhola a capacidade de poupança para um pagamento integral parece um luxo para poucos, em Castilla y León, a tradição de acumular recursos para a aquisição à vista ainda pulsa forte, desafiando a escalada dos preços e a pressão do mercado. Essa diferença não se explica apenas por fatores de mercado, mas também por uma conjunção de elementos que vão desde o perfil do comprador até a estrutura demográfica e patrimonial de cada região.

As disparidades não param por aí. Outras comunidades como Cantabria, Castilla-La Mancha, Comunidade Valenciana e Galícia também apresentam uma forte inclinação para o pagamento à vista, com percentuais que superam os 50%. Em contrapartida, regiões com forte apelo turístico ou com um mercado imobiliário mais especulativo, como o País Basco (87,2%) e a Catalunha (70,2%), mostram uma dependência ainda maior do crédito. Essa fragmentação do mercado imobiliário espanhol, com centros de alta demanda e financiamento versus áreas onde a poupança prevalece, reflete um país em que o acesso à moradia se desdobra em caminhos radicalmente diferentes, dependendo de onde se escolhe fincar raízes.

A análise do CGN, embora focada em dados de agosto, lança luz sobre tendências mais amplas. O encarecimento contínuo do metro quadrado residencial, que desde 2018 subiu cerca de 50%, somado ao aumento dos aluguéis, tem tensionado a economia de muitos lares. A Fundação BBVA estima que 9% da população se encontra em "sobrecarga por gasto de habitação", dedicando mais de 40% de seus rendimentos ao alojamento, um índice que sobe para 20% entre os jovens e 26% entre imigrantes. Nesse contexto, a necessidade de financiamento bancário se torna quase inescapável para muitos, tornando a realidade de Castilla y León uma exceção crescente em um país cada vez mais hipotecado.

O que essa divisão nos diz sobre a Espanha? Talvez que o sonho da casa própria se bifurca: um, financiado e precário, marcado pela dependência do Euríbor e pela constante pressão financeira; outro, mais tradicional e seguro, alicerçado na poupança e na autonomia patrimonial. A disparidade entre Madrid e Castilla y León não é apenas estatística; é um retrato vívido de um país onde as oportunidades e os desafios de acesso à moradia se distribuem de maneira desigual, moldando o futuro de seus cidadãos de formas distintas e, por vezes, opostas. A pergunta que fica é: como essas realidades distintas podem coexistir e evoluir em um mercado cada vez mais globalizado e interconectado?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka