O mercado imobiliário espanhol deu um sinal sutil, mas que ressoa com força entre os analistas do setor. Em maio, a assinatura de hipotecas para aquisição de moradias caiu 0,1% em termos anuais, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). O número, praticamente uma estabilidade, mascara uma mudança de humor e de dinâmica que os principais portais imobiliários do país já consideram um novo ciclo.

A leitura corrente é que a era do crédito farto e barato, que sustentou o mercado nos últimos anos, está chegando ao fim. A reportagem da Forbes España compila as visões de players como Idealista e Fotocasa, que, apesar de nuances, convergem na percepção de que o aperto da política monetária europeia finalmente bateu à porta do consumidor. O debate não é mais sobre se haverá uma desaceleração, mas sobre sua intensidade.

O Fim da Abundância

A divergência está no tom. Para o Idealista, o volume de empréstimos parece ter se estabilizado, mas a tendência de arrefecimento é clara e deve se acentuar, em linha com a queda já observada na compra e venda de imóveis. A análise aponta para o aumento contínuo dos juros como um fator determinante, consolidando um custo de financiamento mais elevado.

Já a porta-voz da Fotocasa, María Matos, defende que o mercado ainda exibe uma “notável fortaleza”, com o crédito fluindo graças à demanda ativa e à competição entre bancos. Ainda assim, ela admite que se trata de uma “nova fase do ciclo hipotecário”, na qual os bancos começam a priorizar a rentabilidade das operações em detrimento do volume. É uma mudança estratégica sutil, mas com consequências diretas para o mercado.

A Bifurcação do Acesso

Essa nova fase, segundo a análise, deve criar um mercado de duas velocidades. Com a seletividade dos bancos em alta, compradores com maior solvência e capacidade de poupança encontrarão um cenário mais favorável, talvez com menor competição. Em contrapartida, o acesso ao crédito ficará mais difícil para quem depende de maior alavancagem financeira.

É um espelho para mercados como o brasileiro, onde a flutuação da taxa Selic impacta diretamente as condições de financiamento. O cenário espanhol, marcado também por preços elevados de moradia e oferta insuficiente, serve como um laboratório em tempo real dos efeitos do aperto monetário. A questão que paira não é apenas sobre a Espanha, mas sobre como outros mercados imobiliários, igualmente aquecidos por juros baixos, irão absorver o novo custo do dinheiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España