Em um galpão em Borreiros, na Galícia, o tempo parece ter parado. Rádios de válvula dividem espaço com lampiões de querosene; manequins antigos observam um Citroën 2CV e um Jeep militar de 1942, que seu dono jura ter participado do desembarque da Normandia. Este é o domínio de Alberto Cancela, um colecionador de 60 anos que transformou uma paixão de vida inteira em um negócio improvável.

As milhares de peças que ele acumulou ao longo de décadas hoje servem de acervo para o cinema e a televisão. Quando uma série como 'Fariña', que reconstitui o narcotráfico galego dos anos 80, precisa de um carro, um cinzeiro ou um telefone da época, é a Cancela que os produtores recorrem. Seu caos organizado é um atalho para a autenticidade.

O valor da poeira

O que para muitos seria apenas um amontoado de velharias, para a indústria audiovisual é um tesouro. O negócio de Cancela floresce na especificidade. Diretores de arte não buscam apenas 'um móvel antigo', mas a cadeira exata que estaria numa casa de classe média em Vigo em 1985. É essa precisão que o acervo de Cancela oferece, uma curadoria acidental que se provou comercialmente valiosa.

Cada objeto — de uma garrafa de anis a ferramentas de ofício e letreiros publicitários — carrega uma pátina de realidade que cenários construídos do zero dificilmente replicam. A coleção, portanto, transcende o valor material de cada item. Ela se torna um serviço, uma biblioteca de texturas e memórias que empresta verossimilhança às narrativas na tela.

A herança de um homem só

O sucesso do negócio, no entanto, mascara uma ansiedade crescente. A paixão de Cancela é solitária. 'Ninguém me acompanha nessa', desabafa, segundo a reportagem do Xataka, referindo-se à sua esposa e filhos, que não compartilham do seu entusiasmo. A dedicação ao acervo tornou-se um trabalho em tempo integral, focado em catalogar e organizar um universo de coisas que não para de crescer.

A questão que o assombra é o futuro. 'Que herança ruim deixo para os meus pobres filhos', reflete. O que para ele é um legado de vida, para seus herdeiros pode ser apenas um problema logístico e financeiro monumental: galpões repletos de objetos para liquidar. O tesouro de um homem é o fardo do outro.

Ao final, a história de Alberto Cancela levanta uma questão sobre a natureza do colecionismo. O valor de seus milhares de objetos reside na sua existência conjunta, na curadoria obsessiva de uma única mente. Sem o colecionador, o que resta? Apenas um inventário de coisas esperando por um novo significado, ou pelo esquecimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka