“Os termos ‘mãe’ e ‘pai’ têm a mesma energia dominante que ‘Deus’ ou ‘o Diabo’ em um poema.” A afirmação, da poeta americana Dorothea Lasky, é o ponto de partida para entender não apenas sua mais recente coletânea, “Mother”, mas uma obra inteira que se debruça sobre o poder dos arquétipos. Em uma longa entrevista concedida ao blog da The Paris Review, Lasky desmonta a figura materna de seu pedestal sentimental para revelá-la como uma força primária, complexa e, por vezes, aterrorizante.
O trabalho de Lasky, aqui, transcende o lançamento de um livro de poesia. Trata-se de uma investigação sobre como a linguagem constrói e é construída por nossos mitos mais fundamentais. Ao colocar a mãe no mesmo patamar simbólico de Deus e do Diabo, a poeta não busca o choque pelo choque, mas sim resgatar a ambivalência e a potência de uma figura que o imaginário popular tentou domesticar. Para Lasky, a mãe — e, por extensão, o poema — não é uma abstração etérea, mas um corpo feito de carne, sangue e contradições.
O arquétipo em carne viva
A obra de Lasky opera em uma tensão constante entre o universal e o particular. Embora seus poemas recorram à sua própria história — a relação com sua mãe, uma artista “brilhante e dinâmica”, e a memória de sua avó, de quem herdou o nome —, ela resiste à leitura puramente biográfica. A poeta relata com certo humor o equívoco de uma leitora que presumiu conhecer sua mãe a partir de um verso sobre conservas de pêssego. “Minha mãe nunca enlatou um pêssego na vida”, esclarece. A anedota é um lembrete: o “eu” lírico é um veículo para explorar o arquétipo, não um diário íntimo.
Essa exploração mergulha fundo nas ambiguidades. Para Lasky, a mãe é tanto um “barômetro moral” quanto o seu inverso, um reflexo da misoginia patriarcal que exige uma pureza inatingível. Complicar esse termo, segundo ela, é um ato deliberado. A gênese do livro “Mother” ilustra essa fluidez: o projeto começou como uma série de cartas em prosa para seu pai, inspirada em outra autora, mas a poesia se impôs. Após o falecimento de sua mãe durante a edição, os poemas ganharam uma nova destinatária, provando que o significado, assim como a identidade, está em constante transformação.
A materialidade da linguagem
“Um poema é cheio de carne.” A frase de Lasky é talvez a que melhor sintetiza sua visão sobre a arte da escrita. Ela rejeita a noção de que a linguagem é imaterial, pairando acima do mundo físico. Para ela, um poema é uma “coisa corpórea”, um “resquício do orgânico”. Essa percepção é informada por experiências que vão do sublime ao grotesco: da sensação de um bebê se movendo no útero — um misto de maravilha e terror — ao seu trabalho de adolescência em um laboratório, dissecando cérebros de moscas sob um microscópio.
Essa insistência no orgânico conecta sua poesia diretamente ao gênero do horror. Lasky revela que escrevia um romance de terror, “Katie”, em paralelo a “Mother”. Os temas se cruzam: a personagem do romance é uma mãe de aluguel manipulada por um sistema sinistro. A conexão não é acidental. O horror, como gênero, prospera na vulnerabilidade do corpo, na fragilidade do “saco de carne” em que estamos presos. Para Lasky, os sistemas de poder — seja o médico, que controla o corpo da gestante, ou o religioso — operam de forma semelhante, “predando o amor pelo qual as pessoas estão dispostas a fazer qualquer coisa”.
O processo de criação de Lasky revela uma última e crucial camada de sua visão de mundo. Ao finalizar o livro, ela alterou o último verso de um dos poemas, publicado anteriormente na The Paris Review. A frase “Você vai salvá-lo / Assim como os outros” tornou-se uma pergunta: “Mas você vai salvá-lo / Assim como os outros”. A mudança de uma afirmação para uma interrogação é mais do que um ajuste estilístico; é uma declaração filosófica. Para a poeta, salvar alguém ou algo é sempre uma questão, nunca uma certeza. No universo de Lasky, talvez as declarações mais potentes sejam aquelas que se recusam a oferecer respostas, preferindo a ressonância duradoura de uma pergunta bem formulada.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Paris Review Blog




