A secretária de Estado de Agricultura e Alimentação da Espanha, Begoña García Bernal, defendeu nesta segunda-feira uma reestruturação ambiciosa da Política Agrária Comum (PAC) da União Europeia. O objetivo central é garantir o relevo geracional no campo, um desafio demográfico que ameaça a sustentabilidade da produção agrícola no bloco. Durante a reunião ministerial do grupo Med9, realizada em Zadar, na Croácia, a representante espanhola afirmou que o país buscará destinar 10% das verbas do próximo ciclo orçamentário da PAC, referente ao período 2028-2034, exclusivamente para a renovação das lideranças rurais.

Segundo reportagem da Forbes España, o posicionamento espanhol busca não apenas injetar capital, mas integrar políticas de incentivo à entrada de jovens e mulheres no setor com estratégias de desenvolvimento regional. A proposta reflete uma preocupação crescente com o envelhecimento da força de trabalho agrícola e a necessidade de modernização tecnológica para manter a competitividade do setor no cenário global.

O desafio da sucessão no campo

A questão do relevo geracional é um dos pontos mais críticos para a segurança alimentar e a economia rural na Europa. Com uma população agrícola envelhecida, o setor enfrenta dificuldades para atrair mão de obra qualificada e empreendedores dispostos a investir em tecnologias de ponta. A proposta da Espanha de alocar uma fatia fixa de 10% do orçamento da PAC surge como uma tentativa de institucionalizar o apoio financeiro, que muitas vezes é disperso ou insuficiente para cobrir os custos iniciais de entrada na atividade.

Além do financiamento direto, a Espanha tem apostado em programas como o "Cultiva" e a plataforma "Tierra Joven", que visam facilitar o acesso à terra e o intercâmbio de conhecimentos técnicos. Essas iniciativas buscam mitigar a barreira de entrada que o alto custo de terras e equipamentos representa para as novas gerações, criando um ecossistema mais favorável ao empreendedorismo agrícola.

Mecanismos de revitalização rural

A estratégia defendida pelo governo espanhol vai além do subsídio direto à produção. García Bernal destacou a necessidade de vincular a política agrícola a um plano mais amplo de desenvolvimento territorial, que inclua conectividade digital, oferta de serviços públicos e moradia. O argumento é que a permanência do jovem no campo depende da qualidade de vida oferecida pelo ambiente rural, e não apenas da rentabilidade da lavoura.

Nesse contexto, o programa "Leader" é apontado como uma ferramenta eficaz, por permitir que as soluções sejam desenhadas a partir das necessidades específicas de cada território. Essa abordagem descentralizada permite que o desenvolvimento rural seja tratado como uma política de Estado, conectando a agricultura com o combate ao despovoamento de regiões historicamente marginalizadas.

Tensões e implicações políticas

A proposta de destinar 10% do orçamento da PAC para o relevo geracional certamente encontrará resistência em um cenário de orçamentos apertados e demandas divergentes entre os países membros da União Europeia. Países com diferentes perfis produtivos podem divergir sobre a priorização de fundos, especialmente em um momento em que a sustentabilidade ambiental e a transição energética também exigem grandes aportes financeiros da mesma fonte.

Para o ecossistema europeu, o sucesso dessa política dependerá da capacidade de harmonizar as necessidades dos pequenos produtores com as exigências de escala e inovação tecnológica. A discussão também levanta paralelos importantes para outros países com desafios demográficos semelhantes no setor agrícola, onde a falta de sucessão familiar coloca em risco a continuidade da produção local.

O horizonte da PAC 2028-2034

O que permanece incerto é como a Comissão Europeia reagirá a essas demandas específicas de alocação orçamentária. A transição para o próximo ciclo da PAC será marcada por intensas negociações sobre o equilíbrio entre a produtividade agrícola e a coesão territorial, temas que se tornaram indissociáveis na agenda política de Bruxelas.

Observar a evolução dessas propostas nos próximos meses será fundamental para entender se a União Europeia conseguirá efetivamente renovar seu campo ou se as medidas continuarão a ser paliativas diante da mudança estrutural da demografia rural. A eficácia dessas políticas será testada pela capacidade de atrair não apenas novos agricultores, mas novas formas de pensar a gestão do território.

A discussão sobre o futuro do campo europeu transcende a economia imediata, tocando no cerne da coesão social e territorial da União Europeia. A proposta de destinar 10% da PAC ao relevo geracional coloca o desafio de transformar zonas rurais em espaços de oportunidade real. Resta saber se o bloco terá a coesão política necessária para priorizar o longo prazo em detrimento das pressões orçamentárias de curto prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España