A construção e manutenção de estádios esportivos frequentemente se tornam um ponto de debate quando órgãos públicos são convidados a injetar recursos. Clubes e ligas profissionais argumentam que essas arenas são motores econômicos, capazes de atrair visitantes, dinamizar o comércio local e gerar empregos. No entanto, uma análise aprofundada realizada por economistas da Universidade de Tampa, nos EUA, lança dúvidas sobre a validade desses argumentos, concluindo que o investimento público em estádios raramente se justifica economicamente.

A pesquisa, liderada pelos professores Abigail Hall e Aaron D. Wood, examinou a relação entre o financiamento público e o retorno econômico de estádios esportivos, especialmente nos Estados Unidos e Canadá. O estudo, publicado em The Conversation, revela que, entre 1970 e 2020, os contribuintes dessas nações arcaram com cerca de 73% do custo total da construção de novas instalações esportivas, um montante estimado em US$ 33 bilhões. Essa cifra é particularmente surpreendente, considerando que muitas das ligas e franquias beneficiadas registram lucros anuais bilionários.

O argumento dos clubes e a realidade econômica

Os clubes esportivos frequentemente utilizam a narrativa do "motor econômico" para justificar a necessidade de apoio público. Alegam que os estádios atraem turistas, que por sua vez gastam em hotéis, restaurantes e comércio local, além de gerar empregos e aumentar a arrecadação de impostos. Em muitos casos, franquias chegam a ameaçar mudar de cidade caso não recebam os incentivos financeiros desejados, uma tática que também se observa em outros mercados, incluindo o brasileiro. O peso social e cultural do esporte é inegável, mas a questão central reside na rentabilidade desses investimentos, especialmente quando o poder público assume uma parcela tão significativa dos custos.

A pouca rentabilidade do investimento público

A conclusão central de Hall e Wood é direta: "Quase nunca se recupera". A análise histórica demonstra que o setor público raramente reavê a subvenção inicial concedida para a construção de estádios. Um estudo de 2023, que monitorou o impacto econômico de arenas esportivas ao longo de quatro décadas, corrobora essa visão, apontando que os benefícios econômicos para os contribuintes são "escassos ou nulos". O "boom" econômico prometido raramente se materializa; não há evidências de um impacto sistemático na abertura de novos negócios. Quanto à valorização imobiliária, os resultados são inconclusivos, com alguns estudos não encontrando qualquer efeito e outros indicando um aumento modesto, mas apenas após a saída das equipes, o que sugere que o valor não está intrinsecamente ligado à presença contínua do estádio ou do time.

Impacto de visitantes e comércio local

Embora a realização de jogos importantes possa atrair visitantes de outras cidades e países, Hall e Wood relativizam o impacto econômico desses eventos. A lógica é que grande parte do público que frequenta os estádios já reside na cidade ou em seus arredores. Esses frequentadores regulares, embora gastem em ingressos e consumos internos, não representam um fluxo de capital novo e significativo para a economia local, como seria o caso de turistas que visitam a cidade especificamente para o evento e utilizam outros serviços.

Perguntas em aberto e o futuro do financiamento

A pesquisa levanta questões cruciais sobre a alocação de recursos públicos em projetos de infraestrutura esportiva. Se os benefícios econômicos diretos para os contribuintes são mínimos ou inexistentes, qual o critério para justificar o uso de dinheiro público? Seria o valor social e cultural do esporte suficiente para subsidiar essas construções? A análise sugere que as promessas de prosperidade econômica associadas à construção de estádios são, em grande parte, ilusórias, e que os governos deveriam reavaliar cuidadosamente os custos e benefícios antes de comprometer fundos públicos em tais empreendimentos. O futuro do financiamento de estádios pode exigir modelos mais sustentáveis, onde o setor privado assuma uma responsabilidade financeira maior.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka