Julho de 2023. Michel Moore, chefe de polícia de Los Angeles, dirige-se a uma nova turma de formandos da academia local. "Esta é uma profissão que muitos dirão, e eu direi, ser a mais difícil da América", afirma Moore, um retrato da força policial moderna, com seu corte de cabelo impecável e voz imponente. Diante dele, recrutas e suas famílias celebram em um dia ensolarado. "Muitos acreditam saber como fazê-lo", continua Moore, "mas poucos realmente se apresentam. E, desses poucos, ainda menos possuem as qualificações para atender às demandas do que significa ser um policial." A cena, em sua aparente normalidade, esconde uma peculiaridade que causaria espanto a qualquer oficial de segurança pública no mundo desenvolvido: a dimensão da força policial americana em comparação com seus pares internacionais.

Los Angeles, com seus 3,9 milhões de habitantes, é frequentemente comparada a Berlim, capital alemã de população similar. Enquanto a cidade californiana conta com cerca de 8.500 policiais para cobrir seus 1.214 km², a força policial de Berlim, para uma área similar, é o dobro, com aproximadamente 18.000 agentes. Essa discrepância não é isolada. Cidades americanas como Phoenix e Dallas possuem efetivos significativamente menores que suas congêneres europeias, como Munique e a região metropolitana de Bruxelas, respectivamente. A percepção generalizada nos EUA de estar "superpoliciado" contrasta brutalmente com a realidade quantitativa, levantando um véu de incompreensão sobre a gestão da violência letal no país.

Um chamado por mais agentes

Daniel Oates, ex-chefe de polícia de Aurora, Colorado, uma cidade com mais de 400.000 habitantes, ri ao ser questionado sobre o que faria com o dobro de seu efetivo, similar ao de Zurique. "Seria glorioso", responde. Ele descreve um plano detalhado: metade dos novos agentes seria destinada ao patrulhamento ostensivo, visando reduzir tempos de resposta a chamados de emergência, especialmente em horários de pico. Os demais seriam alocados em um fortalecido programa de policiamento comunitário, focado na construção de relacionamentos e na resolução de problemas cotidianos que, embora não criminais, impactam a qualidade de vida e podem prevenir a escalada da violência.

A eficácia do policiamento, argumenta Oates, depende intrinsecamente do "bem-estar" da população. Um contingente reduzido e sobrecarregado, correndo de uma ocorrência para outra, jamais terá a oportunidade de cultivar a confiança mútua necessária para que problemas sejam comunicados precocemente. A construção desse vínculo, onde a comunidade confia no policial e vice-versa, é vital para identificar e mitigar conflitos antes que se tornem graves. Essa abordagem contrasta com a visão de que o policiamento se resume à repressão e à punição.

A ciência por trás da presença

Criminologistas como Jens Ludwig, que acompanhou policiais em Chicago, destacam a importância da presença policial na interrupção de conflitos iminentes. "Uma prisão é um evento raro", observa Ludwig, "mas um policial pode facilmente interromper uma discussão que poderia escalar para um encontro letal." Ele relata um episódio em que um policial interveio em uma discussão acalorada entre um homem e uma mulher, dissuadindo o agressor sem a necessidade de prisão, mas mudando a "química da situação". Oates concorda, estimando que para cada prisão, um policial realiza dezenas dessas "interrupções espontâneas". Dobrar o efetivo significaria dobrar a capacidade de desarmar tensões antes que resultem em violência.

Essa lógica é amplamente compreendida e aplicada na Europa, onde departamentos de polícia maiores refletem uma crença fundamental no papel preventivo e comunitário da força. A admiração cultural americana por figuras policiais em filmes e livros contrasta com a relutância em investir em um contingente policial robusto. A narrativa predominante, impulsionada por movimentos como "Defund the Police" após o assassinato de George Floyd, sugere que a redução do número de policiais e de seus orçamentos diminuiria a brutalidade. No entanto, essa visão ignora um trade-off crucial: a relação entre a certeza da punição e sua severidade.

O paradoxo da "despolicialização"

Estudos como o de Christopher Lewis e Adaner Usmani, "The Injustice of Under-Policing in America", revelam um paradoxo: países com maior capacidade policial, como Suíça, Noruega e Japão, registram baixíssimos índices de violência policial. Em contrapartida, nações com menos policiais por homicídio, como Brasil, Paquistão e África do Sul, tendem a apresentar um policiamento mais severo e, por vezes, arbitrário. Os Estados Unidos, nesse gráfico, situam-se perigosamente ao lado de países com histórico de atuações policiais questionáveis.

A "despolicialização" promovida após 2020 levou à redução do efetivo em muitas cidades americanas. Filadélfia, Washington D.C. e São Francisco, por exemplo, viram seus departamentos encolherem significativamente. Essa diminuição, embora alinhada a demandas por menos violência policial, pode inadvertidamente aumentar a severidade necessária para manter a ordem, uma vez que a certeza de ser pego diminui. A escassez de policiais, em vez do excesso, pode ser a verdadeira causa do policiamento mais duro e menos comunitário.

Assim, a questão central permanece: a América está superpoliciada ou subpoliciada? A percepção pública, moldada por eventos trágicos e discursos polarizados, parece ignorar a complexidade quantitativa e qualitativa do policiamento. A realidade é que, em muitas cidades, a ausência de agentes suficientes pode estar contribuindo para um ciclo vicioso de violência e desconfiança, em vez de promover a segurança e a coesão social que almejamos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas