A 'Segunda Revolução Americana' e o Precipício Político
A política americana encontra-se em um momento de tensão sem precedentes, onde a retórica de uma "segunda revolução americana" ecoa em círculos influentes, levantando sérias preocupações sobre o futuro da democracia no país. Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, liderou o Projeto 2025 e declarou em 2024 que os Estados Unidos estavam "no processo da segunda revolução americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a esquerda permitir". Essa declaração, feita em um podcast de Steve Bannon, sugere um plano para uma tomada de poder autoritária, que, segundo a análise, seria improvável de ser aceita passivamente pela esquerda. O país parece estar à beira de um precipício político, com as eleições de meio de mandato de 2026 sendo consideradas as mais cruciais da história moderna dos EUA. Este momento definirá se a democracia liberal prevalecerá ou se o país deslizará para um "neofascist mafia-state authoritarianism".
A possibilidade de uma vitória democrata na Câmara e, talvez, no Senado, coloca em xeque as intenções de Donald Trump e seus aliados MAGA. A incerteza sobre suas ações — se declararão emergência nacional, interferirão na administração eleitoral, tentarão reverter resultados ou criarão caos e confusão — é palpável. A história recente, com a recusa em aceitar a derrota em 2020 e as contestações judiciais e midiáticas, aponta para uma iminente crise constitucional. Uma maioria democrata na Câmara poderia reafirmar sua autoridade, lançar investigações sobre a "corrupção sem precedentes" de Trump e até mesmo levá-lo a um novo impeachment. Contudo, a experiência passada sugere que Trump provavelmente obstruirá tais investigações, ignorando intimações e prolongando processos judiciais.
Trump: O 'Rei Louco' e a Luta pelo Poder
A análise de Trump como "completamente desequilibrado", um "presidente mentalmente instável e delirante", um "rei louco que vive em sua própria realidade inventada" e um "mentiroso patológico e narcisista maligno" pinta um quadro sombrio. Sua obsessão em nunca parecer fraco e em ser sempre visto como vencedor, combinada com um desejo de vingança contra aqueles que o desagradaram, o torna uma figura perigosa, especialmente em sua atual posição de fragilidade política. A descrição de que "aspirantes a autocratas nunca são mais perigosos do que quando encurralados" sugere que Trump pode intervir nas eleições de formas antes inimagináveis para evitar uma derrota humilhante.
Os preparativos de Trump e seus aliados para minar a confiança pública na integridade eleitoral e dificultar o voto para eleitores democratas são evidentes. Caso essas táticas falhem, táticas mais agressivas, como impedir que membros eleitos do partido opositor tomem posse, podem ser empregadas, levando a um impasse que seria decidido pela Suprema Corte. A votação de 147 republicanos para anular os resultados de 2020 após o 6 de janeiro serve como um alerta. O Partido Republicano foi radicalizado por grupos como nacionalistas cristãos, neofascistas e etnonacionalistas, que agora ocupam o centro do palco político. A busca por mandados de busca para apreender cédulas em Fulton County, Geórgia, sob teorias de conspiração desacreditadas, pode ter sido um teste para as eleições de meio de mandato, com a participação notável de Tulsi Gabbard, sugerindo uma possível estratégia de Trump de usar alegações de interferência estrangeira para justificar a apreensão de equipamentos de votação.
A Estratégia MAGA e a Perda de Apoio Republicano
A narrativa de que eleições vencidas por democratas são fraudulentas, pois seus apoiadores negros e pardos são considerados "eleitores ilegítimos ou falsos", reflete a visão de Trump e seus aliados. Eles alegam que o sistema eleitoral é vulnerável a hackers e que a fraude é generalizada. A observação de que "toda acusação por Trump e seus aliados MAGA é uma confissão" sugere uma projeção de suas próprias ações e intenções. Apesar de seu baixo índice de aprovação e da impopularidade de suas políticas de imigração e gestão econômica, com inflação persistente e custo de vida elevado, Trump parece alheio à opinião pública. Seus apoiadores, incluindo hispânicos, estão frustrados com sua indiferença às preocupações econômicas e com o descumprimento de promessas. A canalização de centenas de milhões de dólares em "dinheiro sujo" por super PACs pró-republicanos para as eleições de meio de mandato levanta dúvidas sobre sua eficácia diante de uma provável "onda azul".
A aparente falta de interesse de Trump em persuadir eleitores não-MAGA e seu aparente desinteresse em sabotar as chances eleitorais do Partido Republicano levantam questões sobre seus motivos. Seria ele crente de que o jogo já está ganho, ou que as mudanças nas regras eleitorais garantirão a vitória? Ou ele teria um plano de contingência? Jonathan Freedland sugere que Trump não teme uma maioria democrata devido à sua imunidade e à proteção da Suprema Corte. A incapacidade do Congresso de impor sua vontade sem uma maioria qualificada para condenação em impeachment fortalece essa visão. Mesmo com uma maioria democrata, a influência de Trump sobre um presidente "sem lei e desequilibrado" que controla o Departamento de Justiça e tem uma maioria MAGA na Suprema Corte, além de poder conceder perdões, limita o alcance democrata. A investigação do comitê sobre o 6 de janeiro, apesar de reunir evidências incriminatórias, teve pouco impacto, pois foi descartada como politicamente motivada e a "lentidão" na acusação criminal de Trump permitiu que ele evitasse a justiça.
Implicações e o Futuro da Democracia Americana
O foco em "mostrar a corrupção massiva de Trump e seus aliados, e ligá-la às dificuldades econômicas e à insegurança dos americanos comuns" pode ressoar com o eleitorado. A estratégia de canalizar o descontentamento para a "classe oligárquica e os bilionários da tecnologia" em vez de focar apenas na ameaça do autoritarismo MAGA pode ser mais eficaz. Uma "onda azul" massiva pode aumentar o poder de barganha democrata, mas a disciplina partidária e a superação de obstruções republicanas, como o filibuster, permanecem desafios. A eliminação do filibuster, embora controversa, poderia ser a única opção para aprovar legislação significativa, tornando a regra a norma para todas as leis, um cenário que já é a prática republicana. A desconfiança dos eleitores nas promessas democratas é compreensível, dado que, apesar de controlarem o Congresso e a presidência nos primeiros dois anos de Biden, não conseguiram proteger direitos fundamentais e responsabilizar Trump e seus aliados.
A realidade sombria é que os republicanos contam com uma Suprema Corte majoritariamente MAGA para bloquear qualquer legislação democrata que não lhes agrade, sob pretextos legais questionáveis. A reforma da Suprema Corte deveria ser uma prioridade para os democratas em 2028. A corte pode ignorar precedentes e a lei para impedir que os democratas desmantelem a arquitetura autoritária. Para superar esse bloqueio judicial, é necessária uma corte mais equilibrada e a limitação de sua jurisdição recursal em casos específicos. A capacidade dos democratas de implementar suas prioridades legislativas não deve ser minada por uma Suprema Corte "dissidente" com objetivos ideológicos. A pergunta que permanece é: o que democratas e organizações da sociedade civil estão fazendo para impedir a subversão da democracia? O Brennan Center for Justice, Democracy Defenders Fund e outras entidades lideram a resposta legal às prováveis litigações republicanas. O projeto "New Battlefield" do Partido Democrata planeja treinar "protetores da democracia" para monitorar eleições e combater intimidação de eleitores. Grupos como Indivisible e Sunrise Movement organizam protestos, enquanto acadêmicos distribuem guias para juízes. O No Kings Network visa "aumentar o comparecimento às urnas" e "incentivar o voto antecipado". Richard Hasen, um estudioso do direito, afirma que "cabará cabendo aos estados, aos tribunais e ao povo americano" salvar a democracia.
Perguntas em Aberto e o Futuro Incerto
A Constituição confere ao Congresso o poder de alterar as regras eleitorais federais estaduais, mas a capacidade dos estados de defenderem seus direitos administrativos e dos tribunais de aderirem à Constituição são cruciais. A sociedade civil, especialmente líderes religiosos e comunitários, deve servir como um "baluarte contra o deslizamento para o autoritarismo". Trump, acreditando ser intocável devido à sua imunidade e à proteção da Suprema Corte, age para manipular as eleições de meio de mandato, ao mesmo tempo que suas políticas prejudiciais colocam os republicanos em uma situação eleitoral delicada. Essa aparente contradição pode ser explicada pela prioridade de Trump em impedir que uma maioria democrata no Congresso impacte sua capacidade de governar por decreto, mais do que pelo sucesso do Partido Republicano.
Sua incapacidade psicológica de admitir que suas visões políticas estão desalinhadas com a maioria dos eleitores o leva a apoicar teimosamente centros de dados, tarifas inflacionárias e a guerra contra o Irã, enquanto emite ordens executivas para beneficiar os republicanos nas eleições. A questão fundamental é se Trump optará pela "opção nuclear política", declarando emergência e confiscando máquinas de votação e cédulas para se proteger de investigações congressionais. Ele usará as eleições de meio de mandato para expandir o poder executivo e consolidar seu regime autoritário? Republicanos, pensando em um futuro pós-Trump, se recusarão a cooperar? Haverá um "avanço autoritário"? Como um "patinho manco" impopular e politicamente enfraquecido, Trump pode não ter sucesso em subverter a democracia, especialmente se uma "onda azul" suficientemente grande se materializar, mas infligirá danos imensos ao país em sua tentativa. Se os democratas vencerem a Câmara ou ambas as casas do Congresso, ao menos um terço do país, incluindo a maioria dos republicanos, considerará a vitória fraudulenta, como ocorreu em 2020. O ecossistema de mídia de extrema-direita disseminará e repetirá incansavelmente as alegações infundadas de fraude eleitoral de Trump, transformando-as em uma "verdade autoevidente" para os fiéis do MAGA. O objetivo de Trump é envolver as eleições em uma névoa tão densa de confusão e incerteza que as pessoas desistam de tentar conhecer a verdade. Diferentemente de 2020, desta vez os republicanos MAGA terão a força total das agências federais e departamentos executivos, incluindo o Departamento de Justiça e o Departamento de Segurança Interna, por trás do esforço para reverter a eleição, além de lealistas de Trump que administram eleições em vários estados. Dada a história recente, a maioria MAGA na Suprema Corte provavelmente explorará ou criará brechas legais, ambiguidades e áreas cinzentas da lei para decidir a favor dos republicanos. Mas se a Corte parecer abertamente partidária ao decidir disputas eleitorais e desqualificar democratas com base em alegações falsas de fraude eleitoral ou interferência estrangeira, haverá uma crise nacional. No final, os tribunais não nos salvarão de um presidente sem lei e seus aliados MAGA; apenas uma onda azul de magnitude suficiente e uma defesa vigorosa dos resultados eleitorais o farão. Como os EUA são extremamente polarizados e eleitores de ambos os partidos veem as eleições como uma ameaça existencial, as perdas eleitorais tendem a aumentar o medo e corroer ainda mais a confiança mútua essencial para a democracia liberal. Nesse contexto, as eleições não resolvem conflitos temporariamente; elas os amplificam. Qualquer que seja o resultado, a eleição de meio de mandato é apenas a última escaramuça em uma batalha contínua contra o "neofascist mafia-state authoritarianism" de Trump, um movimento revolucionário que se estende além das fronteiras dos EUA. Embora uma vitória democrata nas eleições de meio de mandato seja certamente bem-vinda, ela provavelmente será apenas um alívio temporário em uma nação profundamente dividida e politicamente polarizada com um eleitorado zangado e volátil. Por mais de uma década, Trump e seus aliados MAGA injetaram lenta e deliberadamente veneno político na corrente sanguínea da sociedade americana, onde continuará a circular e a festerar no futuro previsível. Como diz o clichê, toda crise é uma oportunidade que abre uma janela de possibilidade para mudanças radicais. Trump é cada vez mais impopular e a coalizão MAGA está se fragmentando. O resultado da luta contra o autoritarismo neofascista nos EUA dependerá da infraestrutura de resistência que estiver em vigor no momento da crise. Como Antonio Gramsci argumentou em um contexto diferente, "o elemento decisivo em toda situação é a força permanentemente organizada e há muito preparada que pode ser colocada em campo quando se julga que uma situação é favorável, e ela só pode ser favorável na medida em que tal força exista e esteja cheia de espírito de luta". O resultado da luta contra o autoritarismo neofascista nos EUA não é predeterminado; tudo depende da vontade e do compromisso dos americanos em fazer o que for necessário para manter sua república.
Com reportagem de Brazil Valley
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