A Eucatex (EUCA4) está reconfigurando sua estratégia operacional para mitigar a volatilidade dos preços da madeira, um insumo crítico que sofreu pressões nos últimos trimestres devido a fatores climáticos adversos. Ao manter uma base florestal própria de aproximadamente 40 mil hectares, a fabricante de painéis, portas e tintas busca assegurar o suprimento de matéria-prima, essencial para a estabilidade de suas margens em um setor de construção civil sensível a custos de commodities.
Segundo informações do vice-presidente Antonio Goulart, a empresa enfrentou perdas de produtividade causadas por condições climáticas desfavoráveis, o que forçou uma incursão pontual no mercado de terceiros para suprir entre 5% e 8% da demanda. A tese editorial é que, para uma small cap com valor de mercado de R$ 2,27 bilhões, a gestão eficiente deste ativo florestal não é apenas uma necessidade produtiva, mas um imperativo financeiro para evitar a exposição a picos de preços provocados por grandes projetos regionais.
A lógica econômica do arrendamento florestal
Em vez de imobilizar grandes montantes de capital na aquisição de terras, a Eucatex tem priorizado o arrendamento. A diferença de custo é expressiva: enquanto a compra de um alqueire em São Paulo pode demandar entre R$ 150 mil e R$ 200 mil, o arrendamento anual gira em torno de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Essa estratégia permite à companhia expandir sua área de plantio com maior flexibilidade e menor desembolso inicial.
Essa abordagem reflete uma disciplina de alocação de capital que prioriza o retorno sobre o investimento operacional em detrimento da valorização imobiliária do ativo terra. Ao evitar a compra, a empresa mantém sua estrutura de capital mais ágil, focando recursos em projetos de modernização fabril e na expansão da capacidade produtiva, essencial para sustentar o crescimento de longo prazo em um mercado competitivo.
Eficiência através do swap florestal
Outro pilar da estratégia da Eucatex é o intercâmbio de madeira, conhecido como swap florestal, realizado com concorrentes como Suzano e Sylvamo. O mecanismo permite que cada player colha madeira em áreas geograficamente mais próximas de suas respectivas plantas industriais, reduzindo drasticamente os custos logísticos, que representam uma parcela significativa do preço final da commodity.
O modelo demonstra uma maturidade colaborativa no setor florestal brasileiro. Ao compartilhar ganhos de eficiência logística, as empresas conseguem otimizar a cadeia de suprimentos sem comprometer a competitividade comercial. Para a Eucatex, essa prática é fundamental para manter a viabilidade econômica de projetos em regiões fora de seu eixo principal de atuação, transformando a localização geográfica em uma vantagem de custo.
Expansão e investimentos em 2026
Para além da base florestal, a companhia projeta um capex de cerca de R$ 500 milhões para 2026, um incremento de 30% em relação ao ano anterior. O foco está no segmento de portas e batentes para o programa Minha Casa, Minha Vida, onde a empresa planeja triplicar a produção. Além disso, R$ 40 milhões serão destinados a equipamentos de geração de energia térmica, visando aproveitar resíduos da operação.
Esses investimentos sugerem uma estratégia de verticalização e otimização de processos que visa reduzir a dependência de fontes externas de energia e matérias-primas. A capacidade da empresa de executar esses planos determinará sua resiliência diante de ciclos econômicos, mantendo o foco na redução de custos operacionais como motor de geração de valor para os acionistas.
Perspectivas sobre a gestão de ativos
A venda recente de 800 hectares da Fazenda Nossa Senhora da Conceição por R$ 200 milhões exemplifica como a Eucatex monetiza ativos imobiliários estratégicos para reforçar o caixa. A empresa, no entanto, mantém a posse da área para colheita durante o período de recebimento parcelado, garantindo a continuidade do suprimento.
A questão central para os próximos anos reside na capacidade da companhia de equilibrar o aumento da produtividade florestal com a demanda crescente da construção civil. O monitoramento do capex e da eficácia das novas tecnologias térmicas será crucial para entender se a Eucatex conseguirá sustentar a valorização de suas ações, que acumulam alta de 33% desde janeiro de 2026.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





