Expedição de Gigantes: Cooperação e Conflito no Teto do Mundo
A primavera de 1971 viu uma tentativa singular de conquistar o Monte Everest, liderada por Norman Dyhrenfurth e Jimmy Roberts. O plano era ambicioso: dividir a expedição em dois grupos para atacar simultaneamente a desafiadora Face Sudoeste e a técnica Crista Oeste. Mais do que um feito de alpinismo, a empreitada deveria ser um símbolo de cooperação internacional e tecnologia de ponta em escalada. No entanto, a realidade se mostrou mais complexa e controversa. Antes mesmo de a equipe chegar ao Nepal, a expedição já estava imersa em um forte processo de comercialização. A BBC garantiu direitos exclusivos de transmissão, integrando uma equipe de nove cinegrafistas ao grupo. Paralelamente, o jornal The Sunday Times adquiriu os direitos britânicos, enviando jornalistas proeminentes como Murray Sayle. A máquina midiática inflou as expectativas, pintando a escalada como uma mera formalidade e antecipando um sucesso histórico, o que criaria uma pressão imensa sobre os alpinistas.
Duas Rotas, Uma Tragédia e Divisões Irreconciliáveis
A expedição nasceu da fusão de dois planos distintos. Um grupo britânico-norueguês solicitou a Roberts que liderasse uma tentativa pela Face Sudoeste. Dyhrenfurth já organizava uma expedição para a mesma rota, levando à união de forças. Dada a dimensão da equipe combinada, optou-se por atacar duas rotas simultaneamente. A Face Sudoeste era o objetivo principal, com uma linha direta e vertical (direttissima) em mente, enquanto a outra equipe visava a completa e estética rota da Crista Oeste. Ambas as metas eram extremamente difíceis. A equipe da Face Sudoeste contava com nomes como Dougal Haston e Don Whillans (britânicos), Naomi Uemura e Reizo Ito (japoneses). A equipe da Crista Oeste incluía Wolfgang Axt (austríaco), Michel e Yvette Vaucher (suiços), Odd Eliassen e Jon Teigland (noruegueses), David Isles (americano) e Harsh Vardhan Bahuguna (indiano), com Pierre Mazeaud (francês) e Carlo Mauri (italiano) juntando-se posteriormente. No total, eram 31 escaladores estrangeiros de uma dúzia de países, além de vários Sherpas.
O Preço da Ambição: Morte e Acusações
Em 18 de abril, durante uma tempestade a cerca de 7.000 metros de altitude, Bahuguna e Axt, da equipe da Crista Oeste, desciam de um acampamento elevado. Sem estarem amarrados, Axt, exausto e com o objetivo de economizar peso, continuou descendo após ver Bahuguna acenar. Ouviu gritos e alertou a equipe de resgate. Bahuguna foi encontrado preso à corda fixa, a 25 metros de um terreno mais seguro, mas já coberto de gelo e incapaz de reconhecer os socorristas. As tentativas de resgate falharam devido à tempestade e à escuridão. Bahuguna morreu de frio e exaustão. Roberts, em seu relatório, atribuiu a morte a uma série de erros dos próprios escaladores e à decisão de deixá-los subir tão alto sozinhos. O corpo foi recuperado e cremado. Após o incidente, Dyhrenfurth convocou uma investigação. Axt defendeu suas ações, argumentando que o risco de perder os próprios dedos e artelhos era iminente. Mazeaud, por outro lado, chamou o ocorrido de "assassinato por negligência". A tragédia e a tempestade que se seguiu levaram a uma divisão interna: a maioria dos escaladores remanescentes da Crista Oeste desejava mudar para a rota mais convencional do Colo Sul, considerada mais prática. Muitos outros, contudo, especialmente da equipe da Face Sudoeste e os Sherpas líderes, acreditavam que essa mudança visava apenas o sucesso pessoal e a cobertura midiática, e votaram por concentrar todos os esforços na Face Sudoeste. Os que queriam a mudança acusaram o grupo de um "complô" para mantê-los longe do cume e focar a imprensa na rota principal.
O Legado de um Fracasso Parcial
As acusações se intensificaram. Mazeaud, membro do parlamento francês, denunciou uma "insulto à França" e o tratamento de "trabalhador braçal". Yvette Vaucher considerou a decisão "monstruosa". O grupo francês e os italianos abandonaram a expedição em maio, encerrando os trabalhos na Crista Oeste. Isles e Teigland mais tarde lamentaram a decisão de cancelar a rota como um "grande erro". Uma virose, possivelmente mononucleose, se espalhou pelos acampamentos, forçando muitos a descer, incluindo Dyhrenfurth. Com menos pessoal e a Crista Oeste abandonada, Haston e Whillans continuaram a progressão na Face Sudoeste, alcançando cerca de 8.290 metros. No entanto, a falta de cordas, oxigênio e suprimentos, combinada com o frio extremo, os forçou a recuar a 450 metros do cume em 21 de maio. Roberts classificou a expedição como "50% bem-sucedida": falharam no cume, mas os que ficaram trabalharam bem juntos. As visões pós-expedição divergiam: Roberts lamentou a decepção, mas não o ocorrido, criticando a pouca contribuição de alguns e a falta de apoio de outros. Haston destacou o esforço dos britânicos e japoneses. Uemura, após a experiência, decidiu escalar solo dali em diante. A análise posterior de Ken Wilson e Mike Pearson, publicada na Mountain magazine, apontou a fusão de facções e o tamanho excessivo da equipe como falhas sistêmicas, além das severas forças naturais. As perguntas permanecem: a morte de Bahuguna foi um erro individual ou falha da liderança? A decisão de abandonar a Crista Oeste salvou ou destruiu a expedição? O problema foi a ideia de cooperação internacional ou a combinação de personalidades fortes, mau tempo e a pressão do Everest? A expedição de 1971 se tornou um estudo de caso sobre os limites da ambição humana e da organização em um dos ambientes mais hostis do planeta.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ExplorersWeb




