Fabio Cherstich é um nome que ressoa com frequência no universo das artes performáticas, mas defini-lo estritamente como um diretor de teatro seria uma simplificação excessiva. Sua carreira é marcada por uma audácia em transitar por múltiplos territórios criativos, que vão desde a ópera e o teatro convencional até intervenções artísticas em espaços urbanos, desfiles de moda e projetos que exploram a vida de artistas e colecionadores. Essa fluidez, no entanto, também gera uma crise de identidade profissional, como ele mesmo admite.

Em sua casa-estúdio em Milão, Cherstich compartilha com a designboom sua dificuldade em condensar sua vasta experiência em um website. A tarefa de se autodefinir se torna um desafio que transcende a tecnologia. "O problema para mim é como eu me defino", confessa. "Tenho que dizer, 'Eu sou um diretor', mas não é verdade. Eu trabalho como diretor, mas essa é a definição do meu trabalho, não é a definição de mim mesmo." Essa reflexão sobre a identidade profissional, que remonta a sessões com seu terapeuta, evidencia a natureza multifacetada de seu trabalho, que se recusa a ser aprisionado em rótulos.

O Palco Expandido: Da Rua ao Metaverse

As produções de Cherstich frequentemente subvertem a noção tradicional de palco. Em vez de um espaço delimitado, ele utiliza o ambiente ao redor como tela. Um exemplo notável é o Operacamion, concebido para o Teatro dell’opera di Roma, que levava óperas para as ruas da cidade em um palco sobre um caminhão. Essa iniciativa ganhou reconhecimento internacional, tornando-se um estudo de caso em Harvard e sendo citada por figuras como o membro do conselho da cidade de Nova York, Zohran Mamdani, como um modelo de como a ópera pode alcançar novos públicos e transcender espaços convencionais. A obra, que completou quase uma década, continua a inspirar, mesmo sob nova direção.

Sua colaboração com o estúdio de design Formafantasma para a cenografia de "Staging Modernity" em Milão, durante a Milan Design Week, exemplifica essa fusão. Nesse projeto, a linha entre espectador e performance se tornava tênue, com o público convidado a interagir com o espaço cênico, caminhando entre assentos e explorando o palco. Essa fluidez entre o observador, o performer e o palco é uma marca registrada de seu trabalho, desafiando a passividade tradicional do público.

O Design como Narrativa e a Responsabilidade do Olhar

O cotidiano de Cherstich em Milão é permeado por objetos de design que contam histórias e materializam suas conexões pessoais e profissionais. Sua coleção de cafeteiras moka de Aldo Rossi para Alessi, por exemplo, não é apenas um conjunto de utensílios, mas um reflexo de seu apreço por narrativas e pela forma como o design pode contar histórias. "Desde muito jovem, eu gostava de histórias. Sempre me pergunto, como eu poderia contar essa história a uma audiência?", reflete.

Essa premissa se estende à sua visão sobre o papel do espectador. Em um mundo cada vez mais digital e virtual, Cherstich defende a necessidade de uma prática teatral que valorize a presença física e a interação entre corpos reais. "Eu acho que hoje, trabalhar nos campos do teatro e da performance é bastante necessário porque as coisas acontecem ao vivo entre corpos reais. Tudo está se tornando cada vez mais digital, plano, transformável", observa.

Implicações para o Ecossistema Artístico

A abordagem de Cherstich, que ignora fronteiras disciplinares, levanta questões importantes para o cenário artístico contemporâneo. Sua capacidade de transitar entre o universo da arte, do design, da moda e do teatro sugere um modelo de criatividade que valoriza a colaboração interdisciplinar e a experimentação. Para artistas emergentes e instituições culturais, sua trajetória oferece um exemplo de como é possível reinventar formatos e engajar o público de maneiras inovadoras.

A ênfase na responsabilidade do espectador também é um ponto crucial. Ao invés de um receptor passivo, Cherstich propõe um indivíduo engajado, que "precisa ter seu ponto de vista. Precisa investir tempo". Essa perspectiva pode ser particularmente relevante para o Brasil, onde a democratização do acesso à arte e cultura muitas vezes esbarra na necessidade de um público mais ativo e crítico, capaz de valorizar e sustentar as produções artísticas em um contexto de recursos limitados.

Perguntas em Aberto

Ainda que Cherstich pareça ter encontrado um modo de operar que transcende definições rígidas, a questão de como ele se posiciona profissionalmente, e como o mercado artístico e cultural o categoriza, permanece em aberto. Seus projetos, que frequentemente se desdobram em múltiplas plataformas e mídias — desde livros de arte e filmes até curadorias de acervos —, desafiam os modelos tradicionais de financiamento e distribuição de obras. A forma como essas iniciativas se sustentam e se desenvolvem a longo prazo é um ponto a ser observado.

Além disso, a constante expansão de seus projetos para "outros territórios que nem sempre são fáceis de nomear" sugere que a própria definição de arte e performance pode estar em constante mutação. A maneira como essa evolução será percebida e integrada ao cânone artístico, e como novas gerações de artistas e espectadores responderão a esses novos formatos, definirá o legado de abordagens como a de Cherstich.

A obra de Fabio Cherstich é um convite à reflexão sobre os limites da arte e o papel do espectador. Sua carreira demonstra que, em um mundo em constante transformação, a capacidade de transitar entre diferentes linguagens e de inspirar um olhar mais ativo pode ser a chave para a relevância e a inovação nas artes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom