A cena, registrada em fotografias granuladas de 1956, é de uma simplicidade brutal: Saburō Murakami lança seu corpo contra uma sequência de telas de papel esticadas. Os punhos e ombros rasgam as superfícies, transformando planos lisos em aberturas irregulares. A passagem deixa para trás uma pintura feita de força, contato e ruptura. A imagem permanece potente porque a ação é universalmente compreensível — um corpo encontra um obstáculo, que cede e dá lugar à arte nascida das bordas rasgadas.

Este ato não foi um impulso isolado, mas uma expressão central do Gutai, um grupo de vanguarda japonês fundado em 1954 por Jirō Yoshihara. O nome, que pode ser traduzido como “concretude” ou “personificação”, sinalizava o interesse dos artistas em encontros diretos com o mundo físico. Nascido em Ashiya, perto de Osaka, o movimento emergiu enquanto o Japão se reconstruía da derrota na Segunda Guerra Mundial e lidava com o colapso de seu projeto imperial. A ordem de Yoshihara para uma geração mais jovem era um desafio e um método: “Faça o que nunca foi feito antes.”

O corpo como matéria

No contexto de uma sociedade que se recuperava de anos de militarismo e conformidade forçada, a ideia de “brincar” ganhava um peso político. O Gutai tratava a experimentação como um exercício de pensamento independente. O artista Kazuo Shiraga levou essa liberdade ao extremo. Em Desafiando a Lama (1955), ele entrou em um monte de argila úmida e lutou contra seu peso, arrastando e pressionando a substância que resistia a ele. Mais tarde, pendurou-se em uma corda sobre telas no chão, usando os pés descalços para puxar a tinta em grandes arcos. O equilíbrio ditava cada marca; um deslize ou uma mudança de direção tornava-se um artefato na superfície final.

Essa abordagem redefinia a criação. O manifesto do grupo de 1956 descrevia o encontro do espírito humano com o material físico como um evento em que ambos “mantêm sua distância”. Yoshihara queria que os artistas trabalhassem com o caráter de um meio, em vez de forçá-lo a imitar outra coisa. O papel podia rasgar, a lama podia arrastar-se contra a pele e a tinta podia espirrar para fora das linhas. A arte não era mais sobre representação, mas sobre a apresentação da matéria em ação.

A tela se expande

O Gutai sistematicamente desmontou as fronteiras da arte. A pintura deixou o cavalete, e a galeria se tornou um campo de jogo. Outros artistas do grupo desenvolveram seus próprios sistemas para ceder parte do controle: Shōzō Shimamoto quebrava garrafas de tinta e disparava pigmento de um canhão artesanal, enquanto Akira Kanayama enviava um carrinho de brinquedo automático pela tela. O acaso e o impacto mecânico tornavam-se coautores da obra.

Atsuko Tanaka explorou outra forma de participação com Trabalho (Sino), uma instalação de campainhas elétricas conectadas. Um espectador ativava a primeira, iniciando uma sequência de som que percorria o espaço. Sua icônica obra Vestido Elétrico colocava o corpo dentro de uma densa rede de lâmpadas pintadas e fiação exposta, transformando a luz em um circuito vestível e pulsante. Em Por Favor, Desenhe Livremente, o próprio Yoshihara convidou o público a se tornar artista, oferecendo um grande painel para que qualquer um pudesse deixar sua marca.

As fotografias do Gutai podem parecer uma cadeia de gestos selvagens: um homem na lama, outro rompendo papel, uma mulher envolta em fiação elétrica. Mas a lógica mais profunda do movimento reside nas regras que cada artista inventou para si. A liberdade surgia do contato com os limites — da gravidade, da resistência dos materiais, do acaso e da presença de outras pessoas. Ao retornar às telas rasgadas de Murakami, a abertura é tanto dano quanto convite. Ele atravessa, deixando espaço para o próximo imaginar outro movimento.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom