Grandes empreendimentos de uso misto, como o Westlake 66 em Hangzhou, China, frequentemente enfrentam um desafio inerente: a incerteza programática. Projetado para abrigar uma combinação de escritórios, varejo, hotéis e espaços públicos em seis torres, o projeto, iniciado em 2018, viu seu mix de usos mudar repetidamente até sua conclusão. Diante dessa realidade, os arquitetos da Kohn Pedersen Fox (KPF) transformaram essa instabilidade em um diferencial de design: uma fachada adaptável.

Fachada que se molda ao futuro

O nível do pódio do Westlake 66 foi revestido com um tratamento de fachada celular que pode ser reconfigurado. Esse sistema modular permite uma variedade de configurações externas, desde amplas janelas para showrooms até aberturas estreitas para lounges ou aberturas para ventilação de sistemas mecânicos. A ideia é que a fachada possa acompanhar as mudanças de uso ao longo da vida útil do edifício, uma resposta direta à natureza fluida do planejamento de grandes projetos mistos. Jeff Kenoff, diretor de design da KPF, ressalta que a flexibilidade foi crucial, com um edifício inicialmente planejado para hotelaria sendo adaptado para abrigar uma universidade com laboratórios, exigindo respostas de fachada completamente diferentes.

Inspiração na biologia celular

Para projetar em um contexto de fluxos programáticos constantes, os designers da KPF buscaram inspiração na natureza, especificamente em estruturas celulares. O objetivo era desenvolver um sistema de parede que pudesse se adaptar não apenas durante o processo de design, mas também ao longo da existência do edifício. Isso resultou na criação de um sistema de fachada reconfigurável composto por células de aproximadamente 1,80 metro de altura, cada uma capaz de assumir diferentes formas para atender a propósitos distintos. Embora sistemas de fachada modulares não sejam novidade, o diferencial aqui é a sua forma adaptável e a análise aprofundada de cada célula em relação ao seu contexto urbano e condições ambientais, que identificou mais de 2.800 condições únicas a serem acomodadas.

Otimização modular e referências locais

Em vez de criar 2.800 células individuais, a equipe de design computacional da KPF determinou que essas condições poderiam ser gerenciadas por um sistema modular com apenas sete tipos diferentes de aberturas. Essa otimização reduziu a complexidade e os custos. Cada célula possui dimensões gerais idênticas e é composta por um conjunto limitado de 21 peças. Elementos como revestimentos de terracota coloridos adicionam profundidade e sombreamento, além de fazerem referência à indústria local de terracota, que remonta ao século XIV. As cinco cores de terracota mais comuns na cidade foram replicadas no edifício, servindo também como elementos de orientação para diferentes partes do projeto. A modularidade das células, com cerca de 1,80m x 0,90m, permitiu que fossem fabricadas como objetos retilíneos, mas montadas com uma leve curvatura na fachada, criando um efeito visual dinâmico e moldando o espaço público ao nível da rua com praças e entradas.

Implicações para a arquitetura e o futuro

A fachada reconfigurável do Westlake 66 não é apenas um feito técnico, mas também um ponto de interesse visual e um atrativo para os futuros ocupantes, que incluem a universidade, varejistas, uma academia, um hotel de luxo e um espaço de parque. A capacidade de adaptação da fachada sugere uma nova abordagem para o design de edifícios mistos, onde a flexibilidade espacial é tão importante quanto a estética. Embora a reconfiguração completa seja mais provável durante mudanças significativas de inquilinos, o sistema oferece uma solução para a obsolescência programática, um problema crescente em arquitetura. A abordagem da KPF demonstra como a incerteza pode ser convertida em uma oportunidade de design inovador, promovendo a longevidade e a funcionalidade dos edifícios em um mundo em constante transformação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company