A instabilidade geopolítica e o temor crescente sobre a sustentabilidade fiscal das grandes economias globais estão forçando uma mudança de postura entre os family offices. Segundo pesquisa recente do UBS, que ouviu 307 dessas estruturas de gestão de patrimônio em cerca de 30 países, 60% dos entrevistados planejam revisões significativas em suas alocações nos próximos 12 meses. O dado representa um salto expressivo em relação aos anos anteriores, quando apenas 35% em 2025 e 27% no ano anterior sinalizavam intenções de ajuste.
O movimento, classificado por especialistas como uma quebra de padrão histórico, reflete o fim da confiança cega nas estratégias que nortearam a última década. Leonardo Bulgarelli, head de multi-family office para a América Latina no UBS GWM, destaca que os gestores estão questionando se os modelos de alocação que funcionaram no passado ainda possuem validade diante das novas tensões globais.
O desconforto com a hegemonia do dólar
Um dos pontos centrais da análise é o declínio do conforto com o dólar americano. Cerca de 47% dos family offices, que possuem um patrimônio médio de US$ 2,7 bilhões, declararam sentir-se excessivamente expostos à moeda americana. Esse sentimento é o maior registrado entre as moedas analisadas e tem impulsionado 30% dos entrevistados a buscar ativamente a diversificação cambial, enquanto outros 29% já reduziram ou avaliam reduzir sua posição em ativos denominados em dólares.
A exceção notável na amostra reside justamente nos EUA, onde apenas 21% das estruturas planejam mudanças, sugerindo que o fenômeno de busca por um “plano B” é predominantemente externo. Em regiões como o Oriente Médio, o percentual de gestores planejando alterações chega a 82%, evidenciando um movimento global de descentralização de risco que ignora, em parte, a tradicional dependência da divisa americana.
Ajustes táticos e a busca por ativos líquidos
Embora a intenção de mudança seja clara, a execução tende a ser cadenciada. A pesquisa indica um aumento marginal, mas simbólico, na exposição a ações de mercados emergentes, ouro e infraestrutura. O ouro, em particular, ganha destaque como uma das alternativas buscadas para compor o portfólio, junto a outras moedas e, em menor escala, criptoativos. Embora apenas 24% dos family offices invistam em cripto, 44% já o consideram parte da alocação estratégica de longo prazo.
Em contrapartida, há uma tendência de redução na exposição a imóveis, que deve cair de 11% para 8% da carteira total este ano. A alta dos juros globais, somada à necessidade de maior liquidez para reagir rapidamente a novos choques geopolíticos, parece ditar essa preferência por ativos que permitam uma movimentação mais ágil do capital.
O perfil conservador na América Latina
Os dados regionais revelam que os family offices latino-americanos mantêm um perfil mais conservador em comparação aos seus pares globais, com uma alocação significativamente maior em renda fixa e ativos líquidos. Com 29% dos recursos aplicados em bonds e uma forte dependência de ativos americanos — cerca de 60% do patrimônio investido nos EUA —, a região demonstra uma “americanização” que agora começa a ser debatida internamente como um risco a ser mitigado.
O desafio para essas estruturas é equilibrar a necessidade de internacionalização com a busca por diversificação em outros mercados emergentes. Embora o interesse por geografias fora do eixo desenvolvido exista, a preferência atual ainda se concentra majoritariamente em ativos de países desenvolvidos, refletindo a cautela natural dessas estruturas diante da volatilidade.
O que observar daqui para frente
A grande questão que permanece aberta é a capacidade desses family offices de executarem as mudanças de alocação sem comprometer a estabilidade de longo prazo. O movimento de diversificação, embora necessário, enfrenta a escassez de substitutos claros para o dólar, o que pode manter a volatilidade nos portfólios nos próximos trimestres.
O mercado deve monitorar de perto se a redução em imóveis e o aumento em ativos alternativos serão suficientes para proteger o capital contra uma eventual crise fiscal. O ritmo dessas mudanças e a eficácia da diversificação cambial serão os principais indicadores para medir a resiliência dessas estruturas diante do cenário macroeconômico incerto.
O cenário desenhado pela pesquisa do UBS sugere que a era de inércia estratégica chegou ao fim, forçando uma reavaliação constante dos riscos sistêmicos que antes eram subestimados.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





