O governo brasileiro está jogando um jogo de paciência estratégica com os Estados Unidos. A sinalização partiu de Dario Durigan, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, que expressou a esperança de “retomar o curso normal da diplomacia” com Washington após as eleições presidenciais americanas em novembro. A declaração, feita a jornalistas, busca acalmar os ânimos em meio a uma disputa sobre tarifas impostas a produtos brasileiros.
A fala de Durigan revela uma aposta calculada: a de que o ambiente político pós-eleitoral nos EUA, independentemente do vencedor, será mais receptivo a negociações. Ao mesmo tempo, o governo precisa gerenciar a pressão interna. Para isso, acena com a ativação da recém-aprovada Lei da Reciprocidade Econômica, um instrumento que permite ao Brasil retaliar medidas protecionistas de outros países.
A Dupla Aposta: Diplomacia e Reciprocidade
A estratégia do Ministério da Fazenda é um exercício de equilíbrio. De um lado, a menção a uma “eventual tentativa de interferência” americana posiciona as tarifas como um movimento mais político do que técnico, justificando a espera pelo fim do ciclo eleitoral. A leitura é que qualquer negociação agora seria infrutífera, contaminada pelo calor da campanha americana.
Do outro lado, a ativação da Lei da Reciprocidade, ainda que “com cautela”, serve como uma resposta à demanda do Congresso — que a aprovou por unanimidade — e das indústrias afetadas. Segundo Durigan, o movimento não visa atrapalhar as negociações, mas sim garantir “soberania e dignidade” ao diálogo. Na prática, é uma ferramenta de pressão e um recado para o público doméstico de que o governo não está inerte.
O Equilíbrio entre Soberania e Pragmatismo
O governo caminha sobre uma linha tênue entre o pragmatismo econômico e a afirmação de soberania. Medidas paliativas, como a extensão de regimes como o drawback, são adotadas para dar fôlego às empresas prejudicadas, mas não resolvem a questão estrutural. A solução de fundo foi, essencialmente, adiada.
A aposta na normalização pós-eleitoral não é isenta de riscos. Uma nova ou reeleita administração americana pode manter ou até intensificar a política de tarifas, forçando o Brasil a decidir entre ceder ou escalar o conflito. A esperança de Durigan por um retorno à normalidade pode se provar otimista.
Por ora, a estratégia brasileira é de espera vigilante. A questão que fica no ar é se essa paciência será recompensada ou se apenas posterga uma confrontação inevitável. Ao regulamentar a reciprocidade, o Brasil já alterou as regras do jogo, inserindo a retaliação como parte oficial de seu manual de política comercial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





