O privilégio econômico que permitiu aos Estados Unidos financiarem seu consumo interno através de um déficit persistente está sob ameaça. Segundo um novo alerta publicado por economistas do Federal Reserve Bank de Nova York, o país enfrenta um desequilíbrio crescente em sua posição internacional de investimentos, com ativos americanos detidos por estrangeiros alcançando a marca de US$ 69 trilhões. Enquanto investidores americanos possuem US$ 41 trilhões em ativos no exterior, o hiato de US$ 28 trilhões coloca o país em uma posição de devedor líquido que, historicamente, era compensada pelo alto desempenho dos investimentos americanos fora das fronteiras.
Essa dinâmica, descrita pelo Fed como uma "vantagem na taxa de retorno", permitia que os EUA recebessem mais renda do exterior do que pagavam a investidores internacionais. No entanto, esse excedente praticamente desapareceu nos últimos dois anos. O cenário atual sugere que a economia americana não consegue mais sustentar o custo de seus passivos internacionais apenas com a performance de seus investimentos no exterior, forçando uma reavaliação sobre a sustentabilidade do modelo de financiamento do déficit comercial do país.
O fim da vantagem competitiva
Historicamente, os Estados Unidos mantiveram um balanço internacional favorável, mesmo sendo devedores líquidos. Dados do Congressional Budget Office indicam que, em 2004, o país já apresentava passivos significativos, mas a maior maturidade e rentabilidade das subsidiárias americanas no exterior mitigavam o impacto. A capacidade de gerir riscos e capturar retornos superiores funcionava como uma espécie de seguro contra o acúmulo de dívidas externas.
Contudo, esse cenário mudou drasticamente desde 2019, com o déficit na posição de investimentos expandindo-se em US$ 16 trilhões. Esse aumento é impulsionado por dois fatores estruturais: o déficit comercial crônico, que exige a venda contínua de ativos para financiar a importação de bens, e a valorização do mercado de ações americano. Como estrangeiros detêm cerca de 18% das ações listadas nos EUA, cada rali no mercado de capitais eleva o valor dos ativos estrangeiros, ampliando o passivo nacional.
O impacto das taxas de juros
A política monetária recente do Federal Reserve adicionou complexidade a esse quadro. Com cerca de US$ 26 trilhões em ativos estrangeiros sujeitos a juros, como títulos e empréstimos bancários, o aperto na política de taxas impacta diretamente o fluxo de saída de capital. Os pesquisadores do Fed estimam que cada aumento de um ponto percentual nas taxas subtrai US$ 150 bilhões da balança de renda líquida do país.
Essa exposição ao custo do capital cria um ciclo vicioso onde o pagamento de juros e dividendos, que anteriormente permaneceria no mercado interno, é direcionado para o exterior. A necessidade de financiar déficits comerciais contínuos, combinada com pagamentos de juros mais elevados, torna o ônus do serviço da dívida cada vez mais difícil de gerenciar, desafiando a resiliência financeira que o país manteve por décadas.
Tensões globais e domésticas
As implicações deste cenário afetam diretamente a estabilidade do dólar e a política comercial. Se a capacidade de financiar o consumo via venda de ativos for limitada, o país poderá enfrentar pressões inflacionárias ou a necessidade de ajustes fiscais mais rigorosos. Para investidores, o alerta do Fed sinaliza que a dependência de capital estrangeiro atingiu um ponto de inflexão onde o custo de manutenção tornou-se uma variável crítica para a política monetária.
No Brasil e em outros mercados emergentes, a mudança no balanço de pagamentos dos EUA é acompanhada com cautela. A redução na disponibilidade de capital americano ou uma eventual pressão sobre o dólar decorrente deste desequilíbrio estrutural pode alterar os fluxos de investimento global, forçando países dependentes de capital externo a buscarem novas estratégias de atração de recursos ou proteção cambial.
Incertezas no horizonte
O que permanece incerto é a capacidade de adaptação da economia americana frente a esse novo regime de custos. A questão central é se o aumento da produtividade interna será suficiente para compensar a perda da vantagem de retorno no exterior ou se o país terá que reduzir sua dependência de capital estrangeiro através de uma política comercial mais restritiva.
Observar a evolução dos fluxos de renda nos próximos trimestres será fundamental para entender se estamos diante de uma correção passageira ou de uma mudança estrutural permanente. O mercado aguarda sinais sobre como o Fed equilibrará a necessidade de taxas de juros estáveis com a pressão crescente sobre o balanço de pagamentos nacional.
A dependência histórica de ativos americanos como porto seguro global pode estar sendo testada por novas realidades macroeconômicas. A questão de como os Estados Unidos equilibrarão suas contas em um ambiente de taxas de juros elevadas e dívida crescente permanece em aberto, sugerindo que o modelo de financiamento que sustentou o crescimento americano nas últimas décadas enfrentará desafios sem precedentes nos próximos anos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





