O brilho das telas de cinema na China, que já se acostumou a ver a inteligência artificial dominar a produção de microdramas, agora se vê ofuscado por um fracasso retumbante. "Sanxingdui: Future Past", o primeiro filme de longa-metragem totalmente gerado por IA a chegar às salas de exibição do país, não conseguiu cativar o público, arrecadando uma quantia irrisória de cerca de US$ 180 mil em sua estreia. Um desempenho decepcionante, especialmente quando comparado ao seu orçamento de produção de US$ 1,5 milhão. A obra, um thriller de ficção científica que narra a saga de um arqueólogo na luta contra um futuro escravizado pela IA, foi uma aposta ousada do grupo Bona Film, mas o teste com a audiência resultou em um veredicto desfavorável.

O Experimento e a Realidade

Jiang Defu, diretor de operações da empresa responsável pelo filme, reconheceu a recepção morna, mas defendeu "Sanxingdui" como um experimento pioneiro. "Somos os primeiros a tentar, os primeiros a obter uma licença de exibição e os primeiros a ser testados pelo público", declarou ele em entrevista ao veículo chinês Yuli, ressaltando a dificuldade e a importância desse marco. No entanto, o mercado, implacável, mostrou que a inovação por si só não garante o sucesso. As reações nas redes sociais chinesas espelharam essa ambivalência: enquanto alguns usuários descreveram a experiência como "traumatizante", outros viram um lado positivo na capacidade da IA de reduzir custos e oferecer liberdade criativa total. Essa dicotomia reflete um momento de transição, onde a promessa tecnológica esbarra na expectativa e no gosto do consumidor.

A Fronteira da IA no Cinema

A ascensão da IA na produção de conteúdo audiovisual é inegável, especialmente no universo dos microdramas. Na China, mais de 95% das dezenas de milhares de microdramas lançados no primeiro trimestre de 2026 já eram gerados por inteligência artificial, um salto vertiginoso em relação ao ano anterior, com custos de produção que caíram para cerca de US$ 3 mil. Essa eficiência e agilidade transformaram o cenário de conteúdos curtos, mas "Sanxingdui: Future Past" sugere que o público ainda não está pronto para transpor essa barreira para filmes de longa duração. A desconfiança em relação ao uso de IA em produções cinematográficas de maior escala é palpável, contrastando com a aceitação em formatos mais curtos e voltados para o consumo rápido em plataformas de mídia social.

Implicações para a Indústria Global

O fracasso de "Sanxingdui" ecoa em Hollywood, onde o uso de IA no cinema já é um tema controverso, tendo sido um dos pontos de atrito na greve de roteiristas e atores em 2023. Ferramentas de IA já são empregadas em produções americanas, e cineastas como Ben Affleck admitiram seu uso em filmes recentes, embora com ressalvas sobre a "ilusão de realidade" que o cinema busca criar. Especialistas como Stanley Rosen, professor da Universidade do Sul da Califórnia, duvidam que o público vá aos cinemas assistir a um filme gerado por IA, a menos que sua qualidade rivalize com superproduções como "Avatar" ou "Nezha 2". A tendência, ele aponta, pode ser a consolidação da IA em plataformas de streaming, onde a experiência de visualização é diferente. A perda financeira de "Sanxingdui" certamente servirá como um freio para outros estúdios que cogitam investir pesadamente em filmes totalmente criados por IA, instigando uma maior cautela no setor.

A lição de "Sanxingdui: Future Past" é clara: enquanto a inteligência artificial pode revolucionar a produção de conteúdo em formatos curtos e acessíveis, a transição para o cinema de longa-metragem ainda enfrenta obstáculos significativos de aceitação e qualidade percebida. O futuro da IA no cinema, portanto, parece menos uma substituição abrupta e mais uma integração gradual, onde a tecnologia precisará provar seu valor artístico e comercial, sem comprometer a magia e a imersão que o público espera das grandes telas. O que virá a seguir, e se a indústria conseguirá equilibrar inovação e a essência da narrativa cinematográfica, permanece uma questão em aberto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune