O campus da faculdade de William & Mary serviu de palco recente para Francis Fukuyama durante uma cerimônia de formatura. O autor, conhecido mundialmente pela tese do fim da história, não buscou repetir suas previsões passadas, mas sim conectar o presente ao alicerce histórico que dá nome à instituição. Ao olhar para os formandos, Fukuyama evocou a Revolução Gloriosa de 1688, lembrando que a legitimidade do poder nunca foi um dado natural, mas uma conquista política baseada no consentimento.

A cena serviu como um lembrete vívido de que a democracia liberal, frequentemente vista como um estado permanente de desenvolvimento, é na verdade um edifício constantemente sob pressão. Para Fukuyama, a celebração do 250º aniversário da Declaração de Independência americana não deve ser apenas uma efeméride, mas uma provocação sobre o futuro da governança. O discurso sublinhou que, sem a vigilância constante de uma liderança cívica engajada, o contrato social que limita o poder arbitrário corre o risco de se dissolver em formas de autoritarismo moderno.

O alicerce constitucional e o consentimento

A história de William de Orange e Maria Stuart, os patronos da faculdade, é fundamental para entender a gênese do liberalismo. Ao serem convidados para o trono inglês em um momento de crise constitucional, eles aceitaram a premissa de que o monarca não operava acima das leis. Esse momento marcou a transição histórica onde a autoridade real passou a depender da aprovação do Parlamento, estabelecendo o princípio de que o governo deve ser limitado pelo consentimento dos governados.

Fukuyama destaca como as ideias de John Locke, que acompanhou Maria Stuart de volta à Inglaterra, viajaram através do Atlântico para moldar a mente dos fundadores americanos. Thomas Jefferson, ex-aluno da mesma instituição, absorveu esses conceitos de checks and balances que definem o liberalismo. A leitura aqui é que a democracia liberal não se resume apenas a eleições, mas à existência de um Estado de direito que impõe limites reais ao exercício do poder, independentemente de quem o detém.

A regressão democrática e a ilusão da estabilidade

O cenário contemporâneo, no entanto, apresenta um quadro de retrocesso. Desde 2008, a Freedom House aponta uma queda contínua nos níveis globais de democracia. Fukuyama observa que esse declínio não se manifesta necessariamente pelo fim das eleições, mas pela erosão gradual das instituições que garantem a independência do poder judiciário e da imprensa. O exemplo da Hungria sob Viktor Orbán tornou-se um estudo de caso sobre como o autoritarismo pode ser implementado dentro de uma estrutura formalmente democrática.

O mecanismo por trás dessa "democracia iliberal" é a captura deliberada das instituições pelo partido governante. Ao controlar a mídia, reformar constituições e aparelhar o judiciário, regimes buscam esvaziar o significado da escolha popular. Diante disso, a tese que se sustenta é a de que o voto permanece como uma das ferramentas mais vitais de controle contra o arbítrio, desde que a sociedade civil mantenha a capacidade de organização e resistência contra a corrupção sistêmica.

Responsabilidade cívica no século XXI

A liderança cívica, conforme definida por Fukuyama, exige que o cidadão abandone a postura passiva de apenas obedecer às leis e pagar impostos. Em um mundo onde as fronteiras entre democracia e autoritarismo se tornaram fluidas, a participação ativa no processo público é o único antídoto contra a inércia democrática. Para os jovens formandos, o desafio é entender que a liberdade é um exercício constante de responsabilidade sobre o bem comum.

As implicações desse chamado são vastas, atingindo desde a estabilidade de democracias estabelecidas até o fortalecimento de instituições em países que buscam consolidar seus direitos civis. A tensão entre o desejo de governos fortes e a necessidade de freios constitucionais continuará a definir o debate político das próximas décadas. A questão que permanece é se as novas gerações conseguirão renovar esse contrato social em um ambiente de profunda polarização e desconfiança nas instituições tradicionais.

O futuro como construção coletiva

O que observaremos nos próximos anos será o teste definitivo da resiliência das democracias liberais. A história nos ensina que o retrocesso não é inevitável, mas a manutenção da liberdade exige um esforço consciente de cada geração. O legado de 1688 ou de 1776 só sobrevive se for reatualizado por ações concretas de cidadania, e não apenas pela reverência a documentos antigos.

Fukuyama deixa no ar a imagem de um país que, como Lincoln descreveu, precisa de um novo nascimento de liberdade. Resta saber se o engajamento cívico será capaz de superar o cinismo político que permeia as sociedades contemporâneas, garantindo que o poder continue emanando daqueles que, pelo consentimento, permitem ser governados. A história, afinal, parece ser menos um ponto final e mais um eterno recomeço.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion