A Frigol, quarto maior frigorífico do Brasil, estabeleceu uma meta ambiciosa para os próximos anos: superar R$ 7,5 bilhões em receita líquida a partir de 2027. O plano estratégico, revisado pelo conselho de administração da companhia em abril, reflete uma mudança na dinâmica de exportações e uma busca por maior resiliência em um cenário global marcado por incertezas comerciais. Segundo reportagem da Bloomberg Línea, o movimento ocorre em um momento de recalibração das operações diante de novas salvaguardas impostas pela China, o principal destino da carne brasileira.
No primeiro trimestre de 2026, a empresa apresentou resultados sólidos, com receita líquida de R$ 999,2 milhões, uma alta de 2,8% na comparação anual. O lucro líquido atingiu R$ 11,1 milhões, um crescimento expressivo de 11 vezes em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse desempenho foi alcançado mesmo com uma queda de 5,3% no volume de abates, evidenciando que a estratégia de foco em eficiência e valor agregado começa a surtir efeito em um mercado pressionado pela menor oferta de gado.
A guinada estratégica sob nova gestão
Desde que reassumiu o comando da Frigol em janeiro de 2025, o CEO Luciano Pascon iniciou uma revisão profunda dos processos internos da companhia. A estratégia adotada prioriza o que o executivo define como "alavancas de resultado", focando na otimização da produção industrial e na gestão rigorosa de insumos. A ideia é capturar ganhos marginais que, multiplicados pelo volume de produção, geram impactos significativos no balanço final.
Além do rigor operacional, a Frigol redesenhou sua abordagem comercial. A empresa busca não apenas aumentar o volume, mas selecionar mercados que ofereçam maior rentabilidade e valor agregado. Essa postura reflete a necessidade de navegar em um ambiente de custos elevados e oscilações na oferta de gado, onde a eficiência produtiva atua como o principal diferencial competitivo para manter as margens operacionais.
O desafio da dependência chinesa
A China continua sendo o motor das exportações, mas a implementação de cotas de importação pelo governo chinês forçou a empresa a acelerar a diversificação de sua carteira de clientes. Atualmente, a Frigol tem ampliado sua presença em mercados como Indonésia, Canadá, Filipinas e Europa. O volume exportado para o Sudeste Asiático, por exemplo, registrou um salto expressivo de 255% na comparação anual, sinalizando a eficácia do esforço de prospecção de novos destinos.
A leitura do mercado é que a política de cotas da China não deve sofrer alterações imediatas, o que mantém a pressão sobre os frigoríficos brasileiros. Para a Frigol, a estratégia é manter o maior número possível de habilitações sanitárias internacionais, garantindo a flexibilidade necessária para redirecionar as vendas conforme a rentabilidade de cada mercado, sem depender exclusivamente da demanda chinesa.
Rondônia como hub de exportação
Um pilar central dessa expansão é o modelo de parcerias operacionais em Rondônia, firmado com empresas como RioBeef e DistriBoi. Ao utilizar plantas de terceiros sob sua gestão comercial e controle de qualidade, a Frigol conseguiu ampliar sua capacidade sem os custos de capital de novas construções. Esse formato foi determinante para o início dos embarques para os Estados Unidos, mercado visto como estratégico devido à escassez de rebanho americano.
O acesso ao mercado dos EUA, viabilizado pelas condições sanitárias específicas da região de Rondônia, posiciona a Frigol em um patamar diferenciado. A expectativa é que a empresa inicie 2027 com três plantas habilitadas para exportar ao mercado americano, consolidando-se como um fornecedor regular de carne industrial, item essencial para a cadeia de hambúrgueres e processados nos Estados Unidos.
Perspectivas e o futuro do setor
O cenário para os próximos anos permanece condicionado à estabilidade da oferta de gado e à evolução da demanda global por proteína animal. A capacidade da Frigol de realizar o ramp-up das operações em Rondônia e manter a eficiência operacional será testada conforme a empresa escala suas exportações para mercados mais exigentes, como o americano e o canadense.
O setor frigorífico brasileiro atravessa um momento de transição, onde a escala não é mais o único fator de sucesso. A flexibilidade para transitar entre mercados, a gestão precisa da cadeia de suprimentos e a habilidade de navegar por barreiras tarifárias surgem como as novas competências essenciais. A trajetória da Frigol até 2027 servirá como um termômetro para a viabilidade dessa estratégia de diversificação geográfica e operacional.
Com reportagem de Bloomberg Línea
Source · Bloomberg Línea





