O ano de 2016 funcionou como um alarme. Primeiro o Brexit, depois a eleição de Donald Trump. O abalo na ordem liberal democrática deu início a uma busca frenética por explicações. A lista de suspeitos era longa e familiar: desigualdade econômica, racismo, ressentimento contra as elites, a ascensão de demagogos e os fracassos dos partidos tradicionais.
Nesse debate, a voz de Francis Fukuyama, o autor da célebre tese sobre o "fim da história", sempre foi uma referência. Inicialmente, ele, como muitos, tratou a internet e as redes sociais como apenas mais um fator na complexa equação do populismo. Agora, em uma reavaliação de sua própria análise, ele propõe uma correção de rota. A tecnologia, argumenta, não é um coadjuvante. É o protagonista que explica por que a onda populista surgiu nesta época específica e com a forma que assumiu.
A hierarquia das causas
Por quase uma década, o diagnóstico do populismo girou em torno de um conjunto de causas estabelecidas. A globalização que deixou muitos para trás, as guerras culturais impulsionadas pela esquerda progressista e a desconexão das elites urbanas com o resto do país formavam o núcleo do consenso. O próprio Fukuyama contribuiu para essa literatura, tratando a internet como um acelerador de tendências, mas não como sua origem.
A mudança em sua perspectiva é sutil, mas profunda. Não se trata de descartar as outras causas, mas de organizá-las em uma nova hierarquia. A questão fundamental que ele agora levanta, em um ensaio para a publicação Persuasion, é: por que essas tensões, muitas delas latentes há décadas, conflagraram globalmente e de forma tão sincronizada em meados da década de 2010? Para ele, a resposta está na infraestrutura digital que reconfigurou a esfera pública e a própria natureza da confiança.
A arquitetura da desconfiança
O argumento central é que a internet forneceu o ecossistema para que o descontentamento se organizasse de uma maneira inédita. Ela dissolveu os filtros institucionais — a mídia tradicional, os partidos, a academia — que antes mediavam o debate público. No lugar, permitiu a formação de comunidades políticas fragmentadas, unidas por identidades e narrativas de ressentimento que operam em realidades paralelas.
Essa nova arquitetura da informação não apenas deu um megafone a vozes demagógicas, mas alterou as condições para o próprio debate. A confiança, pilar de qualquer sistema democrático, foi corroída em sua base. Nesse ambiente, a polarização não é um acidente, mas uma consequência lógica do design da plataforma. A tecnologia, portanto, deixa de ser um canal neutro para se tornar o ambiente que molda o conflito.
Ao colocar a tecnologia no centro do diagnóstico, Fukuyama torna o problema mais estrutural e, talvez, mais intratável. Se a causa não é apenas uma política econômica a ser corrigida ou um líder a ser derrotado, mas a própria arquitetura da nossa vida digital, as soluções se tornam muito mais difíceis de vislumbrar. A questão que permanece no ar não é apenas como combater o populismo, mas como reconstruir uma esfera pública funcional na era da internet.
Com reportagem de Brazil Valley
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