A permanência de fundadores em posições de liderança após a venda de suas empresas é uma prática comum, especialmente em transições envolvendo private equity. A ideia por trás dessa estrutura é manter a continuidade e a sensação de que os investidores são “amigáveis aos fundadores”. No entanto, a realidade é frequentemente mais complexa e menos produtiva. Um estudo com quase 200 sucessões de CEO revelou que a presença do antigo chefe como presidente do conselho correlacionou-se com menor realização de mudanças estratégicas pelo novo líder.
O Fator Psicológico e Estrutural
A explicação mais comum para as tensões entre fundadores e novos CEOs gira em torno de conflitos de personalidade. Contudo, a análise sugere que as causas reais são, em grande parte, estruturais. Fundadores desenvolvem um profundo senso de propriedade psicológica, onde a empresa se torna uma extensão de si mesmos. Delegar tarefas pode ser percebido como difícil ou até assustador, mesmo após a transferência legal da propriedade. Essa ligação emocional, embora compreensível, pode criar barreiras invisíveis à nova gestão.
Autoridade e Canais de Comunicação
A autoridade é outro ponto de fricção. Quando há duas fontes críveis de autoridade, as equipes tendem a seguir a mais rápida, que muitas vezes é o fundador, devido à sua experiência acumulada. Além disso, as linhas de comunicação informais permanecem. Colaboradores que ingressaram na empresa por causa do fundador podem continuar a compartilhar informações com ele primeiro, ou de forma mais aberta, privando o novo CEO de insights cruciais. Isso cria um cenário onde o novo líder pode se ver mais preocupado em gerenciar o fundador do que em executar sua missão principal.
O Amplificador do Private Equity
O envolvimento de fundos de private equity intensifica essas dinâmicas. O período de retenção (hold period) é geralmente curto, de três a cinco anos, comprimindo o tempo para a adaptação e a implementação de mudanças. Há uma pressão imensa sobre o CEO para gerar crescimento rápido, muitas vezes antes que ele tenha tempo de entender plenamente as nuances da operação ou a dinâmica com o fundador. Adicionalmente, muitos fundos de PE preferem manter os fundadores satisfeitos, o que pode levar o CEO a lidar sozinho com as tensões, sem apoio direto dos investidores.
Alternativas para a Transição
Para CEOs recém-chegados, a situação é desafiadora, pois a estrutura de permanência do fundador raramente pode ser desfeita. Embora o conselho e a busca pelo “abençoar” do fundador sejam passos comuns, focar excessivamente em agradá-lo pode atrasar mudanças e minar a autoridade do novo líder. Estratégias como a introdução de estruturas de gestão mais formais, que reportem diretamente ao CEO, e o investimento em canais de informação independentes (como skip-levels e premortems) podem mitigar o problema. É crucial que o CEO construa sua própria rede de informações para garantir que está ciente do que realmente acontece na organização.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





