Em um diagnóstico que soa quase tautológico, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou o que o balanço das famílias brasileiras já sente: a expansão do crédito tem como contrapartida direta o aumento do endividamento. “Não dá pra ficar contente com a notícia de que o crédito cresceu e depois reclamar que o endividamento cresceu”, disse Galípolo durante a abertura da Febraban Tech 2026, em São Paulo.
A fala expõe o paradoxo da economia brasileira. Mesmo com a renda disponível em nível recorde e o desemprego em mínimas históricas, o endividamento das famílias atingiu o pico de 49,8% da renda anual. A leitura de Galípolo é que, após um bem-sucedido ciclo de inclusão financeira, impulsionado pelo Pix, o desafio agora é gerenciar as consequências de um acesso massivo, mas nem sempre consciente, aos produtos de crédito.
A ressaca da inclusão financeira
O cenário descrito por Galípolo é a fatura de uma política de bancarização acelerada. A entrada de milhões de brasileiros, especialmente de menor renda, no sistema financeiro criou um vasto mercado para a concessão de crédito. O problema, segundo o BC, está na qualidade desse endividamento, concentrado em linhas de alto custo e sem garantia, como o rotativo do cartão e o crédito pessoal não consignado.
Os números confirmam a tese. Mais da metade dos usuários de cartão de crédito no país carregam dívidas com juros, comprometendo, em média, 54% de sua renda. Linhas como o crédito pessoal não consignado viram sua carteira crescer 188% desde 2020. Trata-se de um crescimento explosivo que, sem a devida educação financeira e produtos adequados (suitability), se converte em um ciclo de superendividamento, mesmo em um ambiente macroeconômico favorável.
Do acesso à governança
A resposta do Banco Central, sinalizada por Galípolo, não será frear o crédito, mas sim apertar a regulação sobre quem o oferece. O foco é nivelar o ambiente competitivo, evitando que instituições financeiras ganhem mercado por meio de uma precificação de risco frouxa ou governança inadequada. A mensagem é clara: o crescimento a qualquer custo, apostando que “se a música parar, o problema não vai estar no balanço”, não será tolerado.
Isso significa exigir que os provedores de crédito — bancos e fintechs — provisionem adequadamente o risco que assumem. A autoridade monetária quer garantir que a competição se dê pela eficiência e pela correta distinção entre prêmio e risco, e não por arbitragens regulatórias. Para Galípolo, nem todo endividamento é ruim, citando o financiamento imobiliário como exemplo de construção de ativo. O alvo é o crédito para “consumo efêmero” que corrói a renda.
O discurso de Galípolo marca uma inflexão. Se antes o grande projeto era conectar o brasileiro ao sistema financeiro, agora a missão é garantir que essa conexão seja sustentável. O desafio é modular o mercado de crédito para um uso responsável, sem com isso fechar a porta para a população que acabou de entrar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





