A era do "hype" em torno da inteligência artificial parece dar lugar a uma abordagem mais pragmática, focada em resultados financeiros concretos. A Conferência Gartner CIO & IT Executive 2026, realizada em São Paulo, reforçou a pressão sobre as empresas para que seus projetos de IA demonstrem um retorno sobre o investimento (ROI) palpável. A leitura da Profectum, participante do evento, é que a agenda de tecnologia se aproxima cada vez mais da financeira, exigindo que o valor gerado seja mensurável em indicadores de negócio.
Do Output ao Outcome
Lucas Barros, CEO da Profectum, observou uma evolução significativa nas discussões em relação ao ano anterior. A pergunta central deixou de ser "como implementar IA?" para se tornar "quais resultados tangíveis a IA está entregando?". Essa transição é crucial, pois o acesso facilitado à tecnologia pode levar à proliferação de projetos que, embora tecnicamente funcionais, não agregam valor estratégico. A distinção entre "output" (a entrega de um projeto, como a criação de um agente ou a automação de uma tarefa) e "outcome" (o impacto real no negócio, como o aumento de receita, a redução de custos ou a melhoria da produtividade) foi um dos pontos centrais abordados. A inversão de lógica, que propõe começar pela definição do resultado financeiro desejado e, a partir daí, identificar as condições tecnológicas e operacionais necessárias para alcançá-lo, ganha força.
Transformação Holística: Pessoas, Arquitetura e Resultado
A inteligência artificial não opera em um vácuo tecnológico. A Profectum destacou que o próximo estágio de sua adoção exige uma transformação holística, que transcende a própria tecnologia. O "letramento digital", a capacitação contínua e o "reskilling" de profissionais tornam-se essenciais para que as equipes possam trabalhar de forma eficaz com as novas ferramentas. Paralelamente, a arquitetura de sistemas precisa evoluir para estruturas mais agnósticas, que evitem a dependência excessiva de fornecedores específicos e garantam flexibilidade para adaptação futura. A combinação de pessoas preparadas, arquitetura evolutiva e um "business case" claro para cada investimento é vista como o tripé fundamental para sustentar a transformação impulsionada pela IA.
Descalcificando a Operação para o Futuro
Um dos conceitos mais provocativos discutidos no Gartner foi a "descalcificação" das organizações. Isso implica em questionar e redesenhar processos, estruturas e modelos operacionais que, embora tenham sido eficazes no passado, podem não ser suficientes para o futuro. A transformação não se resume a adicionar IA ao fluxo existente, mas a repensar a própria concepção do trabalho. Esse movimento deve ocorrer tanto de baixo para cima, com equipes capacitadas para usar as novas ferramentas, quanto de cima para baixo, com o alinhamento estratégico entre CEOs, CIOs e CFOs. A mensuração da produtividade também muda, focando no resultado do fluxo de trabalho completo, que integra a execução humana e a das máquinas, em vez de avaliar as partes isoladamente.
A pressão por ROI em projetos de IA é um sinal de amadurecimento do mercado. A inteligência artificial continua relevante, mas a expectativa agora é por demonstrações claras de valor financeiro e operacional, exigindo uma governança mais robusta e uma visão estratégica integrada. A era da experimentação sem métricas claras cede espaço para a cobrança por resultados concretos, moldando o futuro das decisões de investimento em tecnologia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





