A oitava exposição de Gedi Sibony na galeria Greene Naftali, em Nova York, intitulada “The Invisible Point”, reafirma a trajetória do artista em transformar o cotidiano em uma experiência estética contida. Sibony, conhecido por sua prática de assemblage que utiliza detritos urbanos, apresenta um conjunto de obras que, segundo a galeria, buscam “gesticular em direção ao mistério que nos torna humildes”. A mostra, em exibição até 20 de junho de 2026, é um exercício de minimalismo radical que questiona a própria natureza do objeto artístico.
O trabalho de Sibony se insere em uma linhagem histórica que remonta à colagem cubista e aos assemblages de figuras como Louise Nevelson e Robert Rauschenberg. No entanto, sua abordagem é singular pela economia de meios e pela deliberada escolha de materiais sem valor comercial, como estantes de madeira descartadas, pedaços de arame e cabos de vassoura. A disposição das peças no espaço expositivo não é aleatória; ela procura recriar as relações de proximidade que os objetos estabeleceram originalmente em seu estúdio no Brooklyn, conferindo à mostra uma atmosfera de quietude quase meditativa.
O processo alquímico do descarte
A força da obra de Sibony reside na capacidade de conferir dignidade a materiais que, de outra forma, seriam considerados lixo. O artista busca em restos de móveis de rua uma “expressão distintiva”, uma marca humana que persiste mesmo após o abandono. Em peças como “Using Its Own Resources” (2024), Sibony utiliza estantes cujas partes traseiras, geralmente ocultas, revelam padrões de tinta acidentais, criando um efeito visual que ele descreve como uma “fronteira trêmula”.
Curiosamente, o artista admite que nem tudo é apresentado estritamente como encontrado. Em certos casos, ele intervém para mimetizar o acaso, pintando superfícies para que se assemelhem ao desgaste natural da madeira. Essa dualidade entre o objeto encontrado e a intervenção deliberada é o que ele chama de “processo de jumbling” (ou misturador), onde a intuição guia a montagem final, desafiando o espectador a distinguir entre o que é achado e o que é fabricado.
Pintura como exercício de repetição
Além das esculturas, a mostra apresenta uma série de pinturas que se afastam da complexidade física dos objetos para explorar o vazio. Inspirado inicialmente pela obra “Luxe, Calme, et Volupté” de Henri Matisse, Sibony removeu figuras e detalhes narrativos, deixando apenas linhas de horizonte e formas arbóreas minimalistas. O processo de criação, realizado com bastões de óleo, envolveu trabalhar em várias telas simultaneamente, em um ritmo que o artista compara a uma partida de xadrez simultânea.
Essa repetição, segundo Sibony, foi uma descoberta recente que permitiu maior fluidez e precisão na execução. Ele descreve o momento de finalização como um ponto crítico onde as marcas funcionam perfeitamente, exigindo que o artista saiba o momento exato de parar. Essa economia de gestos ecoa a quietude das esculturas, criando um diálogo entre as formas tridimensionais e as superfícies pictóricas que habitam o mesmo espaço.
Implicações para o mercado e colecionismo
A presença de Sibony em instituições globais, como o MoMA e o Whitney Museum, sinaliza a aceitação de sua estética de “abjeção e precisão” no cânone contemporâneo. A capacidade de transformar o efêmero em algo permanente — o que ele chama de “momento congelado” — atrai colecionadores que buscam na arte um contraponto à aceleração do consumo. O mercado, por sua vez, valoriza essa autenticidade que evita rótulos como o “zombie formalism”, mantendo-se em uma categoria própria de investigação material.
Para o ecossistema das galerias, o trabalho de Sibony representa um modelo de exposição que prioriza a experiência espacial em detrimento do espetáculo visual. Ao deixar as luzes da galeria apagadas e permitir que a iluminação natural dite o ritmo da visita, ele força uma desaceleração, convidando o público a observar o detalhe do descarte com a mesma atenção que dedicaria a uma peça de museu.
Perspectivas e o mistério do objeto
O que permanece em aberto, após a visita à “The Invisible Point”, é a fronteira entre o objeto e a intenção. A recusa de Sibony em atribuir um percurso narrativo (“não há de onde ou para onde”) reforça a ideia de que a arte deve ser percebida como um estado de ser. A incerteza sobre o futuro dessas peças, que carregam histórias de descartes urbanos, sugere que a obra de arte é sempre um organismo em mutação.
O espectador é deixado com a questão: quanto do valor de uma obra é intrínseco ao material e quanto é conferido pela curadoria do olhar do artista? A resposta, ao que parece, reside na própria quietude da galeria, onde o lixo urbano é elevado a um patamar de reflexão sobre o tempo e a permanência. A trajetória de Sibony sugere que a arte continuará a ser, em última instância, uma forma de organizar o caos do mundo real.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





