Os cinemas brasileiros enfrentam o desafio de reconquistar o público pré-pandemia, mas uma transformação mais sutil no comportamento da audiência tem ganhado destaque: a crescente influência da Geração Z e seu uso intrínseco de smartphones. Essa nova geração, nascida em um mundo hiperconectado, traz consigo hábitos que desafiam as convenções tradicionais das salas de exibição, exigindo uma adaptação por parte dos exibidores.
Embora a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex) não possua dados específicos sobre a mudança de comportamento dentro das salas, o diretor-executivo Tiago Mafra aponta que o interesse da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) pelo circuito cinematográfico é notável. "A mudança está menos na conduta dentro da sala e mais nos hábitos de consumo", avalia Mafra. Essa perspectiva é compartilhada por Luiz Fernando Angi, gerente de marketing da Cinépolis Brasil, que descreve essa geração como "nascida com o celular nas mãos, [o qual] faz parte do corpo delas".
A proliferação do uso de celulares durante as exibições tem gerado incômodo, como evidenciado por reclamações em redes sociais. Usuários expressam saudades de um tempo em que a experiência coletiva era menos perturbada por interrupções individuais. Apesar disso, Angi observa que o volume de reclamações formalizadas à Cinépolis não apresentou um aumento drástico. "Não é algo perene. Acontece com alguns tipos de conteúdo, por exemplo quando há música e gera maior interação", explica.
O Novo Perfil do Espectador
Um levantamento da plataforma Fandango nos Estados Unidos indicou que a Geração Z é a mais frequente no cinema, com 87% dos entrevistados tendo ido à sala nos 12 meses anteriores. Segundo o estudo, o principal motivador para essa frequência é a dimensão social. "Busca justamente o que a tela do celular não oferece, como imersão, convivência e experiência compartilhada", afirma Mafra, destacando que essa busca por experiências coletivas torna a Geração Z um público estratégico para o setor.
A dinâmica de interação em sala pode se manifestar de diversas formas, como visto em filmes que geram alta engajamento. A cinebiografia de Michael Jackson, "Michael", por exemplo, atraiu um público expressivo, com sessões marcadas por cantoria e dança, transformando a experiência cinematográfica em um evento participativo. Essa tendência de vivenciar o filme de maneira mais ativa e comunitária, mesmo em produções tradicionais, sugere uma nova forma de fruição cultural.
Eventos e a Comunidade Cinematográfica
Com a necessidade de diversificar receitas após a pandemia, os cinemas passaram a sediar eventos além das exibições de filmes tradicionais. Sessões de shows de K-pop e exibições especiais para fãs de animações japonesas, por exemplo, atraem públicos fiéis que se expressam abertamente, muitas vezes em pé e em alto volume. Essas sessões, planejadas para essa interação, não geram conflitos, pois o público já espera e valoriza essa experiência compartilhada.
Angi percebe que esse senso de comunidade também se reflete em sessões de filmes convencionais. "As pessoas gostam de pertencer, de ir ao cinema com uma certa comunidade, para assistir um certo conteúdo que viralizou", comenta. Essa interação pode se assemelhar a assistir em casa, com comentários e discussões durante a exibição, especialmente em filmes baseados em livros ou que geram forte engajamento em comunidades online.
Estratégias de Educação e Adaptação
Para mitigar os transtornos causados pelo novo comportamento, redes de cinema estão investindo em conteúdos educativos pré-show. Essas peças institucionais, que podem custar até R$ 100 mil, orientam sobre saídas de emergência e, crucialmente, sobre o uso adequado de smartphones. "Esses conteúdos são mais assertivos", afirma Angi, pois são exibidos em um momento de atenção capturada pelo público.
Além disso, espaços físicos e digitais dos cinemas são utilizados para criar oportunidades de engajamento social que, indiretamente, educam. A instalação de cenários instagramáveis, como a caixa em tamanho humano da boneca Barbie durante a exibição do filme homônimo em 2023, incentivou os espectadores a registrarem e compartilharem suas experiências, reforçando o senso de pertencimento e participação.
Perguntas em Aberto e o Futuro das Salas
A integração da Geração Z ao universo cinematográfico levanta questões sobre a sustentabilidade de modelos de exibição que não se adaptam. Como equilibrar a imersão exigida por certas narrativas com a natureza social e conectada dessa nova audiência? Será que as salas de cinema se tornarão cada vez mais espaços de eventos compartilhados, com menor foco na experiência silenciosa e individual?
O desafio para os exibidores é encontrar um ponto de equilíbrio que preserve a magia do cinema como experiência imersiva, ao mesmo tempo que acolhe e integra os novos comportamentos de uma geração que vê a tecnologia e a interação social como partes indissociáveis de seu cotidiano. A forma como essa adaptação se desdobrará definirá o futuro da experiência cinematográfica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





