Uma nova estatística acende um alerta sobre a intersecção entre tecnologia e saúde: 76% dos adultos da Geração Z e 63% dos millennials nos EUA estão recorrendo à inteligência artificial como primeira linha de consulta médica, antes mesmo de falar com um profissional. O dado, vindo de um estudo recente, serviu de base para um artigo de opinião na revista Fortune assinado por Virgil Miller, presidente da Aflac, uma das maiores seguradoras dos Estados Unidos.

A tese central é que, embora a IA seja uma ferramenta poderosa para acessar informações, seu uso como substituta do cuidado médico é uma aposta de alto risco. Miller defende que a tecnologia deve atuar como um “copiloto, mas não o motorista” da nossa saúde, uma metáfora para delinear os papéis e os limites da automação no bem-estar.

O Copiloto Digital

A utilidade da IA como ferramenta de apoio é inegável. Ela pode ajudar pacientes a decifrar terminologias complexas, entender opções de tratamento ou preparar uma lista de perguntas para uma consulta. É um instrumento de empoderamento e democratização do conhecimento. Contudo, o artigo sublinha uma distinção crucial: saber mais não é o mesmo que saber o que fazer. A tecnologia não pode realizar um exame físico, como uma mamografia, nem conectar sintomas a um histórico de saúde complexo com a mesma nuance de um médico experiente. A IA não substitui a voz de uma pessoa de confiança perguntando: “Você já foi ver isso?”.

O Interesse da Seguradora

Não é coincidência que o alerta venha do presidente de uma companhia cujo modelo de negócios, especialmente em seguros de câncer, é diretamente afetado por diagnósticos tardios. A Aflac, segundo Miller, existe porque exames são adiados e diagnósticos chegam tarde demais, gerando custos que o seguro de saúde tradicional não cobre. A preocupação com o uso da IA não é abstrata; ela se reflete nos dados de sinistros da empresa. Para o ecossistema de saúde, incluindo o brasileiro, a lição é clara: a conveniência da tecnologia não pode se sobrepor à necessidade de intervenção e julgamento humano, especialmente em um cenário onde, mesmo com informação abundante, quase dois terços das pessoas ainda adiam exames preventivos.

O debate, portanto, não é sobre ser contra a tecnologia, mas sobre definir seu lugar na jornada do paciente. A IA pode refinar as perguntas, mas a responsabilidade de buscar as respostas definitivas — e de agir sobre elas — ainda repousa sobre ombros humanos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune