A paisagem da sala de estar mudou drasticamente. Onde antes se amontoavam livros, discos, fitas e álbuns, hoje imperam estantes mais vazias. Essa transição não reflete escassez, mas sim um universo de conteúdo acessível digitalmente: músicas no Spotify, filmes na Netflix, fotos no Google Fotos e livros no Kindle. Para a Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, essa realidade é a norma, marcando a ascensão de uma cultura do aluguel e do acesso temporário a bens, serviços e experiências.

O economista Jeremy Rifkin, em seu livro "A Era do Acesso", já antecipava essa mudança em 2000, descrevendo a passagem de uma economia baseada na propriedade para uma focada no acesso. Empresas agora mantêm relações contínuas com consumidores através de assinaturas e licenças, permitindo cobranças recorrentes pelo uso em vez de uma única venda. No Brasil, essa tendência se consolida: 72% dos brasileiros possuem apenas assinaturas digitais, e 87% já integram seguros e planos de saúde a essa lógica de mensalidades, com uma média de quatro assinaturas ativas por pessoa.

A sedução do acesso imediato

A conveniência do acesso imediato supera a complexidade e o custo da posse. Serviços como Uber e Airbnb exemplificam essa mudança, oferecendo mobilidade e hospedagem sem a necessidade de possuir um carro ou uma casa de praia. A deputada dinamarquesa Ida Auken levou essa ideia ao limite, imaginando cidades em 2030 onde bens como casas e carros seriam transformados em serviços. A plateia, surpreendentemente, abraçou a ideia, reconhecendo que a posse acarreta custos de manutenção e limitações, enquanto o acesso proporciona variedade, mobilidade e um desembolso inicial menor.

Essa nova dinâmica permite que indivíduos carreguem consigo coleções digitais infinitas, algo impensável na era da propriedade física. Quem hoje assina um serviço de streaming de música tem acesso a milhões de faixas, um acervo que seria impossível de colecionar fisicamente ao longo de uma vida. Essa abundância digital contrasta com a ideia tradicional de acumulação de patrimônio, que historicamente se consolidava na meia-idade.

Implicações para o acúmulo de patrimônio

À medida que os primeiros membros da Geração Z se aproximam dos 30 anos, um período em que seus pais começavam a formar patrimônio, esses jovens priorizam viagens, restaurantes e experiências em vez de investimentos imobiliários de longo prazo. Essa preferência pode levar a uma geração que, embora viva materialmente de forma mais rica e com acesso a uma quantidade extraordinária de bens e serviços, acumule proporcionalmente menos valor patrimonial para a velhice. A "sociedade do acesso" não elimina a propriedade, mas a concentra em novas mãos e em setores específicos.

A propriedade em novas mãos

A propriedade, embora invisível em muitas estantes, não desaparece. Apartamentos alugados, casas de Airbnb e carros ainda pertencem a alguém. A ascensão do modelo de acesso, onde parcelas crescentes da população pagam pelo uso em vez de acumular ativos, sugere uma concentração de propriedade em vez de sua diluição. Nossas estantes vazias, portanto, podem ser um símbolo dessa mudança: um acesso a um universo digital vasto, mas com uma estrutura de propriedade que se torna cada vez mais centralizada e menos distribuída entre os consumidores finais.

O paradoxo da riqueza efêmera

O que essa transição significa para a segurança financeira e o bem-estar futuro da Geração Z? Se a acumulação de patrimônio tangível se torna secundária em favor de experiências, como essa geração garantirá sua estabilidade na terceira idade? A falta de ativos cria novas vulnerabilidades. A dependência de uma conexão estável à internet e da continuidade operacional das plataformas de serviço evidencia a fragilidade inerente ao modelo. Crises de conectividade ou mudanças abruptas nos modelos de negócio podem subitamente revogar o acesso a bens "possuídos" digitalmente. A estante nas nuvens, embora pareça infinita, pode ser um símbolo de uma segurança mais efêmera, onde a riqueza de acesso não se converte necessariamente em resiliência de longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · MIT Tech Review Brasil